quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Faroeste Gaúcho

Volto a postar depois de algum tempo e, infelizmente, um assunto triste que não se pode calar. Claro que o assunto é triste para mim e para todas as pessoas que nasceram, viveram ou sentem um carinho especial por Santana do Livramento, eu, particularmente, encaixo-me nas três categorias. O descaso, a má-educação e a falta de perspectivas são os tripés desta cidade.
A cidade está suja como nunca. Não, apenas, pela quantidade de lixo jogado nas ruas pelos habitantes e os turistas que vêm visitar a vizinha Rivera no Uruguai, mas também pela greve dos lixeiros cujos altíssimos salários estão atrasados há algum tempo. Certo eles, ganhando uma miséria para fazer um trabalho, literalmente, sujo, mas indispensável, não só em relação à estética, como também à saúde. Esse crime contra a população retorna em violência urbana, se é que esta cidade ainda mantém qualquer traço de uma urbe. Casas, pessoas, comércios sendo assaltados. Assassinatos por discussões banais. Tudo tão complicado.
A cidade atrasada no tempo e a mentalidade das pessoas também. Há um concurso de falta de respeito em todas as esferas, mas a mais perceptível é no trânsito, no qual pedestres e motoristas disputam páreo a páreo quem leva o prêmio de cidadão má-educação! As pessoas julgando qualquer comportamento que não faça jus ao modo de vida que se deve levar aqui: vive muito de aparências. Não tenta parecer o que tu és, mas aparenta o que os outros querem que tu sejas, nem que para isso seja necessário o total abandono da tua personalidade.
Mas isso tudo é explicado. A falta de horizontes dos que vivem aqui é de dar pena. Não há empresas, o comércio é deplorável. E tudo contrastando com Rivera que, pela queda do dólar, progride. Bem, Livramento foi uma das únicas cidades do estado do Rio Grande do Sul, na qual a população diminuiu. Se alguém quer algo, deve sair daqui.
Triste, melancólico, imperdoável, ver a cidade onde nascemos, crescemos, conhecemos pessoas, fizemos amizades que duram até hoje, nesse estado lamentável. Tomara, tomara, tomara que algo de bom aconteça neste lugar esquecido pelas autoridades, esquecido pelas pessoas que não respeitam a sua própria casa, e para os que acreditam nele, esquecida por Deus.

sábado, 12 de dezembro de 2009

E agora, José?

E agora, José?
O fim de semestre chegou,
A atividade aumentou,
O tempo sumiu,
O blog parou,
E agora, José?

PS: Temporariamente.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Mais uma vez!

Oba! Mais um escândalo político no país. O congresso e as assembléias legislativas são a Disney da corrupção. É incrível, ou melhor, é, completamente, crível esse tipo de fato em nossas terras. Políticos fazem o que querem como querem, então todos dizem que isso é problema da impunidade. No entanto, e a impunidade das urnas cujos juízes somos nós? Essa também fracassou há tempos.
Quem fizer um trabalho de garimpo, na internet, poderá observar os discursos dos tucanos e dos democratas na época do mensalão. E, agora, a menos de um ano das eleições vêem-se imagens, que, por sinal, não dizem nada, de dinheiro em meias. É interessante ver como os acessórios estão bonitos, nessa moda corrupção Brasil, enfeitados com peixes e onças das notas de cem e cinqüenta. O discurso dos Democratas é rígido, firme, categórico. Claro que o fazem pelo curto prazo para as eleições. Expulsam algumas cabeças que já estão na forca e saem com a imagem irretocável de partido sério que pune os corruptos, pois ninguém se lembrará de que esse era o partido de ACM. Não se sabe onde é direita ou onde é esquerda. Não se tem um porto seguro para atracar. Então o cidadão desilude-se e não dá importância ao cenário político.
Entretanto, o pré-requisito para desiludir-se e cansar-se com a política é haver-se iludido, alguma vez, e ter-se desgastado, e esta geração não moveu sequer uma palha para sentir-se cansada. Bem, nossa geração já nasceu cansada. Na era do tudo pronto, observar, pensar e chegar a alguma conclusão cansa em demasia. Daí, chega-se ao mais banal do senso comum: “político é tudo igual”, “só tem ladrão”. E baseado nessas proposições, chega-se a lógica, extremamente arguta, do: “vou deixar alguém que não eu fiscalize, vote, decida. Não vou reclamar muito, em voz alta. Só vou reclamar pros amigos e xingar que isso eu sei fazer.” Que perspicácia! Sou capaz de apostar que mais de 70% dos eleitores não se lembram de seu voto integralmente, de presidente a deputado estadual, e 90% não faz a mínima idéia do que fizeram seus deputados e senadores nos últimos anos. E agora vemos o retorno, aliás para algo retornar deve haver partido alguma vez. Logo, vemos a massificação (esse é o termo) dos acontecimentos referentes a mais um mensalão, mas desta vez os papéis inverteram-se: os acusados passaram a acusadores e vice-versa.
E assim seguiremos pelo resto dos tempos, pois, há a democracia eleitoral, e nós somos os juízes que não culpamos ninguém. A impunidade no nível judiciário e no popular leva a isto: um país inteiro às cegas, de olhos vendados empurrando a culpa para o cego ao lado. Somos concretização do Mito da Caverna. Enfim, no Brasil, não votamos, torcemos, como no futebol, por um candidato ou por outro e reclamamos do árbitro, sem nos darmos conta que, em última instância, os árbitros somos nós. E alguém duvida como esse filme vai acabar? Em: pizza, bambino, pizza!

PS: no Uruguai, há dois domingos, elegeu-se presidente José Mujica. Esperamos que continue com a importante, necessária e coerente mudança do país. Temos plena confiança nele.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Poços secos

Somos poços com água que verte incansavelmente e é extraída para ser bebida por outros. Somos seres cognitivos com idéias expressas através do discurso. Embora a água verta sem descanso, cabe uma pergunta: pode o poço secar?
Em um primeiro olhar, a resposta óbvia é não. Ninguém, salvo uma catástrofe neurológica, parará de pensar, pois estamos sempre pensando mesmo que não o percebamos. O que devemos saber é como se esgotam as ilusórias idéias de estarmos dizendo algo nosso. Ilusórias porque somos um mosaico de referências cuja extensão vai desde a percepção do mundo até como articulamos o que conhecemos, porque, inclusive, quando negamos algo, temos um ponto de contato com algo de outrem (um outrem que pode ser nós mesmos). Esgotadas porque não conseguimos articulá-las e justificá-las como nossas. Não conseguimos dizer nada a respeito de algo.
Muitas vezes, há tanta água que não necessitamos jogar o balde no poço, ela encharca a terra e começa a ser jorrada ao mundo que nos cerca. Contudo, há tempos de escassez. O balde toca no fundo do poço, sente a terra como árida e volta vazio. A água escondeu-se, fugiu-nos. Sabemos que ela existe, porém não a encontramos. Desconhecemos o motivo pelo qual não obtemos a concatenação do que temos em nosso intelecto. Nada nos desperta o interesse para que articulemos idéias e exponhamo-las, pois o pouco senso crítico de que desfrutamos está abalado. Sim, porque termos a ilusão de sermos os donos de uma idéia, de termos opinião própria que pode ser compartilhada por outros, não é mais do que tomarmos um objeto, entenda-se este como um fato, uma lembrança ou algo material, e refletirmos, confrontarmo-lo com o que já está internalizado, para descrevê-lo, concordar ou discordar com ele. Assim, provavelmente, não temos uma crise de criatividade, senão de senso crítico.
Enfim, esses fatos ocorrem, muitas vezes, em nossa vida, mas problema é que eles nos assustam. A angústia de sentir-se seco por dentro, desertos esperando por água, poços aguardando infiltração, aterroriza-nos e faz-nos pensar que não seremos molhados outra vez.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Saudade

Convivemos com as pessoas, temo-las ao nosso lado durante anos a fio. Depois, vem o distanciamento que é natural, pois as vidas sempre seguem rumos distintos. A falta da convivência que, outrora, era a base do que nos rodeava, faz com que a saudade invade-nos. A presença da ausência é angustiante. O desejo não realizado de estarmos com quem desejamos, faz o coração ficar apertado e as lágrimas rolarem com a simples lembrança. Não falemos, somente, da morte de pessoas queridas, mas da distância física que o vasto mundo nos impõe. Sejam homens ou mulheres, a saudade é o sentimento mais poderoso e mais eficaz em relação à desestruturação emocional de cada um. Aquela frase, muito usada em séculos passados que homem não chora, tinha uma exceção, as lágrimas advindas pela saudade. Esta projetada ou rememorada faz, como todo o sentimento, que a sintamos sem, necessariamente, sentirmo-la. O que é, senão saudade projetada, o sentimento que nos faz cair em prantos quando pensamos na futura morte de alguém que amamos? Esse denso desespero é fruto da consciência que poderemos seguir a existir privados da pessoa a quem queremos. Quando nos lembramos de que já sentimos saudade, ela retorna como saudade. Embora esse fato aconteça com todos os sentimentos, a saudade dói, pois ela desencadeia uma série de outros sentimentos negativos.
A saudade deixa-nos impacientes, angustiados e aflitos. Corrói-nos o coração essa ausência. Não conseguimos respirar quando somos sufocados por essa fenda incipiente ou antiga. Pensamos, simplesmente, na ausência do ser amado, da vida que tínhamos ou do lugar onde vivemos. Limpamos as imperfeições, polimos e deixamos perfeito o saudoso, aumentando, destarte, a saudade. Claro, que saudade é uma bela palavra, cheia de significados, mas o sentimento saudade é terrível. A saudade é uma ponte que se faz de nosso coração até o sujeito amado. Uma ponte não tão pequena para ser cruzada imediatamente, nem tão longa que impeça a visão daquilo que sentimos saudade. E, à diferença de outros sentimentos, a saudade é duradoura, e a angústia que ela nos causa também o é.
Porém, ouvimos asserções que a saudade, somente, é boa quando estamos prestes a matá-la. Discordo! A saudade nunca é boa. O bom é a projeção de que, em breve, não a sentiremos mais. Logo o positivo não reside sobre a saudade, mas sim, sobre a expectativa de sua dissipação.
Portanto, somos reféns da saudade, salvo em casos que ela pode ser, rapidamente, exterminada. Contudo, na maioria das vezes, ela se instaura em nós, porque sabemos da dificuldade e dos empecilhos que nos impossibilitam tal concretização. A saudade de pessoas que estão longe, podemos matá-la desvencilhando-nos dos obstáculos, isso serve também para os lugares, os objetos, mas há duas saudades de pior trajeto: a do que fomos outrora; e a única, realmente, impossível de ser quebrada: a dos que já se foram, pois a ponte rompeu-se no meio do caminho e vemos, apenas, a pessoa saudosa sem que possamos abraçá-la. Mas o pior de tudo é que, com o passar do tempo, uma bruma vai formando-se, tornando a pessoa, mera, lembrança da lembrança, sem que saudade diminua.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Sujeitos elétricos

É incrível a necessidade criada por objetos há pouco inexistentes. Lembro-me de que há dez anos pouquíssimos tinham celulares, outro número reduzido de pessoas tinha computadores e menos ainda acesso à internet. De uns anos para cá, essas inovações popularizaram-se e atraíram o foco das comunicações, da produção e da diversão.
Quando contamos a um adolescente uma história passada conosco quando tínhamos a sua idade, surgem questões como: por que não ligamos para o celular? Por que não deixamos um recado pelo Orkut? É-lhes difícil compreender a vida sem essas tecnologias (obviamente que nos referimos a pessoas com condições materiais para usufruir de esses objetos, haja vista, diferentemente, do que muitos pensam, esses meios de comunicação não existem, senão em desejo, para grandíssimo número de pessoas). A questão interessante é que, embora hajamos vivido a maior parte de nossas vidas sem essas tecnologias, hoje, estamos tão dependentes de si que nos encontramos sem saber o que fazer quando, por algum motivo, vemo-nos privados delas. Um celular sem sinal cria-nos a angústia da incomunicabilidade em um caso de emergência, e a nossa vida é um constante caso de emergência. Sem internet ou computador, não poderemos realizar as tarefas, a nós, designadas, perderemos prazos, deixaremos trabalhos inconclusos.
O apagão e os sucessivos apaguinhos, que não atingiram a região onde moro, fizeram as pessoas brincar de séc. XIX, porém automotorizados, por algumas horas, mesmo que, diferentemente, dos sujeitos do século retrasado, soubessem do que estavam a ser privadas. Praticamente, tudo depende da energia elétrica, inclusive nosso comportamento. Não temos condições de executar tarefas de largo porte na ausência da eletricidade. Somos sujeitos que atravessamos a noite como se fosse dia, pois sem a luz do sol, temos a luz da lâmpada. Armazenamos alimentos perecíveis em nossas geladeiras, informamo-nos com a TV, o radia e a internet; divulgamos o que desejamos através desses meios também. Enfim, somos sujeitos elétricos. Sem luz, perdemos, em um primeiro momento, o entretenimento, depois a vida. Assim, que alternativa apontaríamos para comportarmo-nos se nos tirassem essas tecnologias?
Duvidamos que as pessoas leiam à luz de velas, que construam edificações sem energia. Enfim, duvidamos que as pessoas conversem sem basear-se no que lhes é fornecido pelos meios de comunicação. Então, façamos uma reflexão: com energia elétrica, mas sem PC’s, TV’a, rádios, celulares. Nessa situação, nosso comportamento mudaria drasticamente. Começaríamos a ter opiniões “mais próprias”, pois, na ausência da infinidade de informações que nos despejam a cada minuto, teríamos de fazer um exame atento da sobre a vida e nossas posições acerca do que nos rodeia. Debateríamos com argumentos. A moda seria feita por cada um de nós. Os ídolos seriam de outro tipo. Ou tudo seguiria semelhante, porque surgiriam outras formas de massificação do pensamento, inclusive, os jornais poderiam voltar a ter a importância que tiveram outrora. Mas seriam enormes, pois necessitariam de explicar tudo minuciosamente e portarem grande quantidade de gravuras.
Portanto, não há saída. Sempre, criar-se-iam novas alternativas para que a hegemonia se mantivesse. Somos sujeitos elétricos e massificados. Os meios pelos quais somos produzidos têm a grande capacidade de reinventar-se. Mas, paremos um pouco e pensemos sobre a nossa real dependência das coisas. Ser-nos-á tão dificultoso readaptar-nos a uma vida sem tantos instrumentos? Talvez, sim. Pois não vivemos, mas somos vividos.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Construção

O chocante desespero de ver-se sem chão faz-nos raciocinar com dificuldades. Termos planos e vermo-los desfeitos põe-nos a angústia da incerteza no lugar antes ocupado pela esperança na realização de algo futuro. Quando damos por certo o cume de uma torre, e rompe-se uma parte da base, o desalento de que a construção será infeliz apossa-nos. Então, temos três opções: desistir da edificação, reparar o rompido ou desmanchar tudo e recomeçar do zero. Desde já, repudiamos a primeira possibilidade.
Se resolvermos consertar o que está quebrado (e se não quebrado, era uma lacuna necessitada de preenchimento) será mais rápido o caminho. Mas será resistente para agüentar o que vem por cima? E se quando construirmos alguns metros mais, verificarmos que havia outras partes quebradas e/ou outras lacunas? Devermos voltar à base e reparar os estragos para subirmos mais. Contudo, quando nossa torre estiver pronta (se é que algum dia as torres ficam prontas), poderá ser um espetáculo grotesco de peças justapostas, completamente fragmentada e sem representar o todo da obra. Então, perceberemos que gastamos muito tempo em pequenos consertos de nossa edificação e obtivemos um pífio resultado. Além disso, não teríamos mais tempo para implodi-la e recomeça-la pela base.
Pois optemos pela segunda alternativa. Começamos a base e, antes de colocar o tijolo do segundo nível, testemo-la, a fim de constatar sua resistência, ponhamo-la o toda sorte de provas e, constatada a sua eficiência, passemos ao segundo nível. Repitamos, neste nível, os passos do anterior, para aí, sim, partirmos para o nível subseqüente. Parece ser este o método mais eficaz. No entanto, lembremo-nos que tudo reúne aspectos positivos e negativos. Poderemos ser tomados de uma grave ansiedade por vermos a demora de nossa edificação, enquanto as que nos cercam atingem altitudes vertiginosas. Também, poderemos descobrir que toda a acuidade da construção da base de nada nos serviu, pois não percebemos uma lacuna ou a ação do tempo que destruiu um pequeno pedaço que deveremos refazer, haja vista as construções de torres não terem precisão científica.
Portanto, não há verdades sobre construções, e que cada um aja com a sua como melhor lhe prouver. Eu fico com a segunda alternativa, mas isso é uma visão de construção de torres, e nada impede que, em um caso limite, a mudança de método. Destarte, se daqui a algum tempo a forma de edificação mudar, não se espantem, porque mesmo sabendo que as escolhas devem ser convictas, elas não podem ser imutáveis quando se percebo sua ineficácia. Por conseguinte, voltemos atrás quando se faça, extremamente, necessário, porque não poderemos refazer, durante toda a via, nossa construção.

sábado, 21 de novembro de 2009

Já passamos

Nos últimos dias, estão aparecendo pessoas, neste espaço, que antes não o freqüentavam. Junto à satisfação deste "escrevedor", há a noção de como a escrita é poderosa, e a internet capaz de divulgá-la. Quando escrevemos, temos um leitor ideal que compreenderia o texto na sua totalidade, lê-lo-ia com os nossos olhos, aceitando-o ou não. Porém, quando aparecem os leitores reais, tão diversos, de tão diferentes lugares, com opiniões tão distintas, fazem-nos perceber que há quem leia este espaço, embora existam leituras muito, mas muito mais atrativas para se fazer. É interessante notar que os leitores aparecem, comentam, concordam, discordam ,mas, acima de tudo, manifestam-se, porque esse é o objetivo do blog. Então, agradeço-lhes, desde já, a participação em Pensamento Fascinante, pois além de mostrarem que há leitores, estes permitem que vislumbremos o quão claro ou obscuro, no nível de compreensão, é o texto.
Obviamente que, neste espaço, a postagem não seria, somente, satisfação. Comicamente, chama-se este blog de espaço, claro que um espaço virtual também é um tipo de espaço, mas tudo o que está escrito na internet e, apenas na internet, é poderoso como palavra, somente e tão somente, neste suporte. Imaginemos um futuro não muito distante, no qual os e-books (há pessoas que os lêem) substituam os livros, que a escrita seja toda na internet, que não tenhamos materialidade da escrita. Em um futuro mais distante, que o anteriormente mencionado, mas tampouco muito distante, haja uma crise ambiental (engraçado o uso do subjuntivo do verbo haver) e esgotem-se todas as fontes de energia, por conseguinte a internet acabe, os meios de transporte mecânicos tornem-se inúteis, logo os alimentos não chegariam mais às cidades e a maior parte da população mundial não resistiria. Gerações depois, será, praticamente, impossível resgatar os escritos desta época, logo impossível resgatar esta época. Os primitivos tinham a escrita rupestre e daí se pode recuperar noções ddo seu modo de vida e, inclusive, de pensamento dessa época. E nós, que alcançamos um grau inigualável na escala evolutiva, seremos os mais fugazes a termos passado pela Terra. Não seremos conhecidos, não saberão como nos organizávamos e como pensávamos. Ou, talvez, sabê-lo-ão, pois nosso tempo é o do efêmero, existem elementos antiqüíssimos de dois minutos atrás, tudo é passageiro, nada se consolida. Destarte, ao não saberem nada de nós, saberão muito.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Rir da vida

Ver os olhos que nos vêem, quer na frente do espelho, quer nas pupilas dos outros. Encararmo-nos, alguns segundos, e ter de desviar o olhar, pois nos conhecemos bem, ou, pelo menos, melhor que os outros nos conhecem. Saber que temos os defeitos que criticamos nos outros, saber que somos piores do que nos mostramos, saber que isso é a vida, e se não fosse assim, não seria vida. Contudo, será que isso, realmente, é vida ou são pessoas somente? Bem, são as pessoas que organizam o mundo tal qual é, pensado, racionalizado, com suas hierarquias de valores, logo é a vida.
Então, para que ser tão rabugento e pessimista (ou realista), se somos nós que fazemos a vida. Nós que envolvemos e somos envolvidos, nós que despertamos a cobiça e carregamos a ambição, nós que conhecemos tudo quanto conhecemos e não conhecemos nada que não sabemos. Podemos fazer um mundo muito melhor se, para cada um de nós e apenas para cada um de nós, desviarmos o olhar do que nos desagrada, fixarmo-lo no que nos satisfaz. Entretanto, seríamos mais felizes se assim o fizéssemos, sabendo que o estamos fazendo? Isto é, podemos viver felizes e contentes em um sonho pueril, se acreditarmos, de fato, que somos felizes e vivemos em um sonho puerial, mas quando percebemos (não desejo que pareça ser essa a única verdade) que tudo está errado, que tudo é como é, não, simplesmente, porque é assim, senão por uma série de razões e finalidades, então não poderemos seguir desviando o olhar. Nessa senda, se virmos o mundo belo, ele será belo, mas grotesco se assim o contemplarmos. Agora, imaginemos que se temos de desviar o olhar quando nos vemos, o que faremos com o mundo composto por bilhões de olhares desviados?
Mas há um consolo, sempre há um consolo. Refugiemo-nos na ficção factual. Sim, passemos a ignorar o que nos deixa tristes, ou sobrepor os momentos felizes aos do cotidiano. Isso tudo durará alguns segundos, mas na memória durará infinitamente, pois a outra solução é acabar. e essa não é solução. Além do mais, há quem goste das tristezas e de perceber a vida vazia, sem sentido, sem porquê, e vivê-la, sim, porque não viver é fechar os olhos para tudo e desviar os olhos da verdade, de nós mesmos, é perder a opostunidade de desviar os olhos no espelho, e isso sem seria imiscuir-se, definitivamente, na hipocrisia. Se as coisas são como são, como motivo ou não, azar! Apenas, aproveitemo-las. Pois, se a vida ri de nós, riamos dela, ao menos em alguns momentos, de resto, soframos com ela.

sábado, 14 de novembro de 2009

Tudo seguirá igual

Somos os mais importantes do mundo. Sim, somo-lo, porém, apenas, para nós mesmos. Temos toda a nossa existência calcada a partir de nossos olhos, o mundo é o que é para cada um de nós então, como nossas visões nunca serão exatamente iguais, há, aproximadamente, seis bilhões de mundos no mundo. A questão é que, à medida que pessoas vão nascendo e outras morrendo, acontecem dois fenômenos: nasce e morre um mundo e o mundo, como totalidade dos mundos, modifica-se.
O homem julga-se extremamente importante, mas para além de si não importa muito. O que queremos dizer é que a existência é plena, apenas, para cada um, pois ninguém se importará mais com outrem que consigo mesmo, e isso é óbvio e justo. Por mais que sejamos solidários, a solidariedade é uma satisfação pessoal, ninguém é solidário contra a vontade. E se julgamos que ninguém poderá desenvolver nossos afazeres como nós, isso é verdade em partes, porque, somente, nós mesmos podemos fazer o que desejamos da nossa forma, mas a forma do outro é a melhor para si. Julgamos que sentirão nossa falta quando morramos, como nós sentiremos a das pessoas queridas. É verdade, belo veredicto, contudo o mundo continuará quase o mesmo, apenas, sem nós. Os automóveis circularão, as pessoas seguirão com suas vidas e mundo acabará para nós e se renovará com a chegada de outro ser ao mundo que será seu mundo próprio. Ou seja, somos, deveras, apegados a nós, e isso não é um erro, pois não há outra forma de existência, haja vista que, para nós, tudo circula a nossa volta.
Alguns dirão que pensar assim é por demais triste, contudo, creio que é por demais realista percebermos a pequenez de nossa vida, a falta de sentido da existência, o quão pouco e impotente somos. A existência é isto: apenas existir, sem razão, sem motivo, sem ilusão. A vida é vazia e não acreditamos mais na recompensa de uma vida além-túmulo. Trabalharemos, com esforço conquistaremos nossos objetivos, mas de nada nos servirá, a não ser para um deleite efêmero. Então, deixo-lhes um cruel, por ser assaz realista, poema de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, que, toda vez que o leio, faz-me pensar sobre isso.

Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo? A cinematografia das horas representadas
Por atores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!


Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...


A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros...


Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...


Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.


Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! ...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?


Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?


Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?


És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjetividade objetiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?


Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?


Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células noturnamente conscientes
Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atômica das coisas,
Pelas paredes turbihonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Opinião

Hoje, não será usado este espaço para reflexões (ou sim) ou para reclamações da vida, da política partidária, da política educacional, etc. Mas, para esclarecimentos que, talvez, sejam necessários sobre este espaço e o seu porquê.
Este espaço, embora não pareça, funciona como desafogo de uma alma assolada ou, apenas, preocupada com as demandas do mundo que a cerca. O mundo que exige resultados, que exige embasamento teórico para dizer o que se diz, que exige o cumprimento de prazos, que exige a divisão de um em múltiplos para dar conta do que se tem de fazer. Assim, como tenho a incapacidade total para transfigurar em versos essas questões, faço uso da prosa e, destarte, constrói-se um mundo novo, cujos fragmentos não precisam ser aceitos ou rejeitados, senão entendidos. Ver que há diversas óticas que convivem no mundo e não existe uma certa ou uma errada. Este, muitas vezes intolerante para com o que se julga problemas do mundo, é um espaço de tolerância que não pede nada em troca, a não ser que se deixe falar com as amarras mais frouxas, que se deixe contradizer com todo o direito à contradição, que se deixe de lado a hipocrisia da forma mais hipócrita possível, que as opiniões sejam respeitadas, embora a concordância não exista.
Portanto, este é o espaço, por natureza, para dar opiniões, julgar, emitir juízos de valor da forma "mais natural" possível, sem embasamento, sem preocupação, mesmo que a necessidade de responsabilidade com a palavra seja patente, é uma responsabilidade que se volta, unicamente, para a própria palavra e o sujeito que a escreve, para que não se diga o que não se pensa, pelo menos, no momento da escrita. E, finalmente, ainda bem que necessitamos de um espaço como este, pois as demandas do mundo que causam preocupação são, extremamente, positivas; unem-nos com o mundo, fazem-nos ser parte integrante dele e, além disso, instigam-nos a criar um espaço como este.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Chuva de pedras

Chovem pedras sobre nossas cabeças. Após um belo dia de sol interior, como sempre escassos, abatem-se, sobre nós pedras, de mundo real, com seus jogos curéis, postergando o sonho para depois. Mas, estamos vivos, portanto temos de viver, e, por mais que nos refugiemos em nosso interior, somente, conseguiremos jogar um facho de luz à chuva.
O mundo, a existência, a interação dos sujeitos com os objetos podem e, na maioria das vezes, são dolorosas. Refugiar-se é uma alternativa, pois todos queremos proteger-nos, porém, isso, apenas, retarda o intervalo entre uma pedrada e outra. Então, uma opção mais segura (seguindo, de longe, a criação mítica do homem segundo a civilização maia-quiché) seria, ao longo do tempo, construírmos guarda-chuvas de materiais resistentes. Tentemos, para começar, um de madeira. Este pode resistir às primeiras pedras, contudo, rapidamente, cederia. Passariam muitos anos, e depois de diversos intentos frustrados, com diversos materiais, chegaríamos ao guarda-chuva de aço cuja resistência aceitável satisfar-nos-ia, e, embora esse não se rompa diante das mais poderosas tempestades, nas quais após levar uma pedrada na cabeça, recompormo-nos, levaríamos outras tantas, sempre haverá respingo de pedras a nos atingir.
Pensamos que essa é a melhor alternativa, contudo observamos não nos mantermos invulneráveis. Isso é lógico, pois somos seres frágeis! Poderíamos, então, haver construído uma bolha, uma bolha inatacável, seria mais rápido, útil e seguro. Mas, se a construíssemos, nunca seríamos atingidos pelas chuvas de pedras. Bem, podemos perguntar-nos: não era esse o objetivo? Sim e não. Porque, ao passo que, não somos atingidos pelas pedras, também não nos relacionamos com o mundo e, se assim se desse, para que existir? A existência é ataque e defesa, perda e ganho, belo e feio, amor e ódio, e demais antíteses. Existamos, sejamos atingidos, atinjamos também, ou seja, vivamos! Para que um dia, de nós, a chuva de pedras emane.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Jogo do silêncio

Temos optado pelo silêncio. Obviamente, o silêncio tem muito a dizer, pois calar já é dizer que se nega a falar, seja por desgosto, por dor ou por impotência. Porém, nosso prolongado silêncio já está tornando-se angustiante. Esse silêncio de décadas não mais tem algo a dizer, a não ser que é hipócrita. Fingimos, o tempo todo, estarmos em uma situação decente, mas, no âmago de nosso espírito (leia-se parte intelectual, conceito marxista do termo), sabemos a situação de mediocridade na qual estamos a viver.
Estamos a calar, pois já nos habituamos a essa situação. Berramos aos quatro ventos que somos livres e fazemos o que queremos, e não notamos, ou notamos e não damos a devida importância, que estamos engaiolados dentro de um sistema que nos restringe as escolhas, fazendo-nos crer que as temos aos montes. Como diria Eduardo Galeano a única escolha que temos é onde vamos ser enterrados quando morramos. Vivemos em um jogo de faz de conta cuja base é não exigir dos outros para não termos o infortúnio de sermos exigidos e, assim, acovardamo-nos com medo de errar, ser contestados e perceber que não somos perfeitos, algo que já sabemos, entretanto não queremos adimiti-lo a nós mesmos. O problema maior dessa conduta é a imediatez que carrega consigo, ou seja, a articulação da mediocridade prevê um fim prático imediato, então o futuro a ninguém pertence, porque não podemos enganar o tempo todo.
Porém, quando somos pilhados em nossa representação, temos uma saída muito cômoda, não diferente dessa postura, acusamos outrem de incompreensão, insensibilidade mostrando a vítima que somos ou desqualificamo-lo de forma difamatória. Contudo, no momento em que percebemos que somos vítimas, temos o mais importante para reverter essa situação, mas aí vem o confortável silêncio que não nos tira da comidade e segue a forjar uma situação, por nós, idealizada cuja característica principal é sabermos da enganação. Também não vale muito falarmos, apenas, entre os nossos pares que, conosco, concordam, pois isso é silenciar da mesma maneira. E o jogo não termina. Eu minto que me expresso e vocês mentem que dialogam. Assim, todos somos bons, falando de mentira, ou seja, silenciando.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Cristianismo

A situação é complicada, pois sempre é complicada para nós. Nós, estes seres que vieram depois da Revolução Francesa que começam a perceber apenas fragmentos do mundo, que passam a entender do interior, do psicológico, a pautar-se por estímulos exteriores. Ou também, nós, seres que rompemos com a visão plural dos politeístas, unificamo-nos com o cristianismo, rompemos com o tempo cíclico e fizemo-lo único e irreversível, e por mais que os valores mudem, que o mundo mude, seguimos com uma estrutura cristã, mesmo que esta seja subjacente ou profonada.
Não falemos de negar um deus cristão ou um deus qualquer, ou aceitá-lo, senão, simplesmente, termos, de algum modo, uma visão de mundo, extremamente cristã. A questão que se põe não é acreditar em um deus, não acreditar ou negá-lo, mas, sim, como compartilhamos uma visão de mundo. O tempo pessoal e irreversível, por mais que tenhamos a ilusão de que o tempo é cada vez mais rápido, é uma herança cristã, presa à cultura ocidental. Desprezamos o tempo cíclico, no qual o fechamento de um tempo é o iminente ressurgimento do passado. A história, embora neguemos qualquer vertente teleológica, caminha em linha reta, dirigindo-se para um futuro. Na era clássica, tínhamos a repetição do modelo, mas não de forma ritualística como nas sociedades primitivas. Atualmente, temos algo que é sempre a quebra do passado imediato, impulsionado pela mudança que se torna constante. Ou seja, a constância da sociedade moderna é a mudança. A própria vertente existencialista, por mais desapegada a um deus que seja, não se desvincula das idéias cristãs. Isto é, a liberdade provem do resultado de nossas escolhas, somos esse resultado, e estamos livres a fazer escolhas que dependem de nós mesmos, temos a liberdade de escolher. De onde virá esse pressuposto? Creio que ouvi falar em livre arbítrio. Ponto para o cristianismo.
Portanto, o ponto ao que devemos chegar é que podemos ser ateus, agnósticos, crentes, etc. mas toda a nossa visão de mundo, do Ocidente é claro, está assaz arraigada a visão de mundo cristã. Doutrina forte essa, criou paradigmas que estão subjacentes, inclusive, nos seu maiores negadores. Não sabemos quanto tempo isso levará para mudar e se mudará, pois o mundo deve acabar antes. Opa! O fim dos tempos também é uma idéia cristã. Logo, mais forte, mais poderoso e, perdão pela licença hiperbólica, mais onipresente, onipotente e onisciente que Deus, é o cristianismo. E, destarte, a situação é complicada para nós, porque por mais afastados que estejamos de uma doutrina cristã, sua visão de mundo é os nossos olhos.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Onde estamos quando estamos?

Onde estamos quando estamos em algum lugar? Isto é, vale mais a presença física ou a intelectual? Sabemos que a linguagem é simbólica, ou seja, os signos remetem a outras coisas que não precisam estar presentes, basta que sejam nomeadas para que as ativemos em nossa mente. Então, raríssimas vezes, estamos onde estamos de corpo e mente. Um corpo não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Contudo, a mente faz parte do corpo e, geralmente, está em um lugar distinto ao seu. Destarte, teremos que dar autonomia àquela. Quando alguém está a contar-nos algo, deslocamos nossa capacidade cognitiva, para recuperar os significantes dos signos que outrem nos despeja, logo nosso corpo está em frente da pessoa, mas nossa mente acompanha o percurso de seu relato. Quando, sentados no sofá da sala de nossas casas, abrimos um livro, deixamos que nossa mente flutue na narrativa, na teoria ou na poesia e passamos a compartilhar o seu tempo e seu universo fictício. O mesmo quando lemos um artigo na internet, vemos televisão, ouvimos música, escrevemos algo. Também, quando estamos, simplesmente, sentados a pensar na vida, nosso cérebro cria situações, possibilidades, hipóteses que, naquele momento, são os lugares onde estamos.
Se assim o é, a mente ganha estatuto autônomo, pois ela está sempre em lugar divergente de nosso corpo, e, como ela é quem nos governa, estamos onde o intelecto demandar. No entanto, em algum momento, mente e corpo têm de convergirem no tempo e no espaço e tornar o tempo presente, que é o único tempo verdadeiramente existente, em presente absoluto, em efemeridade irrecuperável. Talvez, isso, somente, ocorra nos momentos em que os sentimentos vêm à tona. Quando amamos e estamos no momento preciso de amar o amor, apenas, fazemos isto: amamos; nos momentos de raiva, damos vazão à nossa ira e, apenas, ela existe, sem que nos reportemos a outros momentos; na hora da alegria, vivienciamo-la pura e simples. Porém, devemos notar que esses momentos são ínfimos, somente, existem por apenas um lampejo de tempo.
Portanto, sim, é possível que estejamos em dois lugares simultaneamente, e não só é possível, como também é o que ocorre na maior parte do tempo de nossa existência. Provavelmente, por essa razão, sempre, o passado e o futuro sejam melhores do que o presente, pois este, poucas vezes, ocorre de forma plena, aliando corpo e mente no mesmo tempo e espaço, e as regressões e projeções têm a característica de selecionar o que desejamos. Haja vista que o tempo da mente, o tempo interior é diferente do tempo exterior, do tempo convenciondo do relógio. Então, além de estarmos, freqüentemente, em dois lugares diferentes de forma tautócrona, também, vivenciamos dois tempos simultâneos.

sábado, 24 de outubro de 2009

Ataques pessoais

As palavras estão permeadas de significados construídos sócio-historicamente. Palavras estas que são empregadas em determinados contextos, iluminando-se, assim, algum ou alguns de seus sentidos e apagando-se outros que, contudo, seguem a existir em estado latente. Nessa senda, sempre, fazemos escolhas a partir da gama de signos que temos em nosso eixo paradigmático, para combiná-los no eixo sintagmático. Entretanto, para que servem esses conhecimentos se vemos uma crescente falta de compromisso com a palavra o que acarreta discussões cada vez mais vazias?
A falta de capacidade, por grande parte das pessoas em manter um debate no nível das idéias sem deslocar os argumentos para o lado pessoal, impede que a construção de nosso paradigma cultural ou destrói o que já foi erigido, pois não conseguimos não discutir pessoas. Esse fato leva a discussões que não passam de um amontoado de palavras cuja falta de conhecimento, no dizer, por parte dos "oponentes" transforma-se em simples despejo de palavras. Dizer que vamos a um compromisso e faltarmos, dizer que chegaremos em determinado horário e atrasarmo-nos, afirmar, com veemência, algo que, na verdade, não temos noção do que seja mostra, em uma esfera cotidiana, a falta de responsabilidade com a palavra. Aliando-se esses dois elementos observamos que os ataques pessoais são fruto da ignorância e da falta de ética. Ora, é muita falta de seriedade difamarmos alguém porque não concordamos consigo.
Além disso, as discussões são vazias, pois toda vez que tentamos dar um passo à frente, na melhor das hipóteses, não saímos do lugar. Debatemos entre os nossos pares, não discordamos de pontos divergentes, pois a intransigência é assobrosa. Então, para que lugar queremos avançar? De que nos serve avançar também, se vamos todos parar na mesma cova. E embora, aceitemos as idéias dos outros, nossa intenção, em última instância, é que os demais , conosco, concordem, porque sempre temos a percepção do mundo através de nós e, destarte, o nosso ponto de vista é o melhor, pois é único para cada um.
Portanto, cabe, discutindo simplesmente idéias, aceitarmos a posição do outro sem partirmos para ataques pessoais, embora o conjunto de idéias de um sujeito mostre quem realmente ele é. Mesmo assim, se tivermos responsabilidade no dizer, conseguiremos debater as idéias e, inclusive, fazermos o que é mais difícl, pois o orgulho nos achata: assumirmos que mudamos de opinião devido a capacidade argumentativa do outro. Porque, se atitude e discurso forem coerentes no sujeito, artigo raro esse, seremos, assim, sujeitos mais livres, haja vista que cumprimos um primeiro compromisso, o com nós mesmos.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Sociedade do espetáculo

Hoje, remexendo em meus papéis da faculdade, encontrei um texto escrito há dois anos. Creio que ainda é atual, por isso resolvi transcrevê-lo neste espaço.

Quando, um pouco antes de ser assassinado por um agente da KGB, Leon Trotsky afirmou que trabalho assalariado é trabalho alienado, inserido na tradição marxista, obviamente, ele se referia a uma mão-de-obra que produzia sem saber com que finalidade, entre outros conceitos. Porém, a alienação, com o desenvolvimento do capitalismo, chegou a um patamar em que as pessoas passaram a comercializar-se. Pessoas essas que, é claro, são não só sujeitos históricos produzidos pela sociedade como também seus produtores.
Há vários atalhos para se alcançar a fama e o sucesso que podem ser trilhados por aqueles cujo talento se resume na beleza. A pessoa pode fazer uma pequena participação em uma novela, na qual o foco não será a capacidade interpretativa do ator, mas a estética das formas de seu corpo, item relevante para fazer com que a audiência suba; ou, noutra opção, pode dançar em um grupo de pagode ou, o que é mais incrível, até mesmo cantar em algum grupo. Mas, hoje, o que está em voga são os "reality shows", programas televisivos que conseguem captar "a essência do vazio" de seus participantes, os quais se comportam de uma forma tão natural, que não percebem que estão sendo filmados. O pior é que os telespectadores acreditam nisso. Assim, as pessoas vão vendendo sua imagem, ou melhor, as imagens das personagens por elas criadas, e a população compra-as, apaixonando-se por elas e, depois da eternidade de três meses, esquecem-se dessas figuras, mesmo porque, nesse ínterim, provavelmente, já apareçam novos "produtos" para serem consumidos.
Todos esses programas, artistas e consumidores da cultura de massa estão trabalhando arduamente para que as pessoas se alienem cada vez mais da realidade e, por conseguinte, dos problemas que o mundo vive, contribuindo para a total banalização do ser. Já os intelectuais, que criticam ferrenhamente a cultura do espetáculo, estão ajudando-a também, pois não apresentam nenhuma alternativa para revertê-la. Então, é mais interessante saber o que aconteceu na novela do que saber o que aconteceu ao seu lado, é preferível conhecer o vencedor do "BBB" ao deputado que levou o nosso voto nas últimas eleições. No entanto, saber o que ocorre no Congresso Nacional não é muito diferente de saber o que ocorre no "Big Brother", a não ser pelo fato de que as câmeras do Congrsso só funcionam de terça a quinta e as festas são muito monótonas, já que sempre acabam em pizza.
Se Trotsky visse o que acontece hoje, essa sociedade do espetáculo, ele diria... Acho que não diria nada, pois teria que assistir aos programas para poder criticá-los depois. E, assim, a cultura nacional, que advém de um processo histórico, é deixada de lado em detrimento de "celebridades" e fatos efêmeros. É hora de reagir e inscrever-se no "BBB".

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Forma e conteúdo

Forma e conteúdo, instâncias importantes não só na linguagem literária, como também no cotidiano. Se o que se fala é importante, a forma de fazê-lo não o é menos. Todos sabemos que o mesmo conteúdo pode ser expresso de diversas formas. Então, o que nos cabe é saber adequar a forma à situação propícia. Amenizamos, modalizamos os enunciados quando damos uma triste ou grave notícia; somos rudes ou ternos quando desejamos mobilizar, tirar outrem da pusilanimidade. Ou seja, a forma expressa o conteúdo a fim de gerar determinado efeito, ou amenizá-lo, o que, na quase totalidade das vezes, é incotrolável.
Contudo, podemos trabalhar a forma, enchê-la, simplesmente, de forma e esvaziá-la de conteúdo. Somos pegos de surpresa por uma questão que não sabemos a resposta, e nosso orgulho faz com que desenvolvamos, ordenadamente, um aglomerado de palavras cujo significado fica relegado a segundo plano, e, assim, logramos o efeito de parecer que sabemos de algo que não temos noção. Portanto, enganamos aos outros e, em parte, a nós mesmos. E quando contamos uma mentira na qual os demais acreditam. Há um conteúdo modificado ou, apenas, existente em nosso intelecto, e o expressamos em uma forma tão verossímil que passa ao estatuto de verdade. Destarte, podemos ser ludibriados, enganados pelos outros da mesma maneira que podemos enganá-los.
Também há os que têm muito a dizer, mas, por uma série de razões, não conseguem expressar o que desejam, ou não têm altura, na voz, para serem ouvidos. Já vimos pessoas que não tiveram acesso à educação formal, ou uma educação precária, porém fazem uma leitura de mundo extremamente peculiar e interessante e são deixadas para trás pelos com forma-sem conteúdo. Às vezes, percebemos o quão profunda é uma reflexão desse tipo e vemo-la tolhida.
Não sei, se este espaço é adequado para se discorrer sobre forma e conteúdo, porque, na maioria das vezes, se tem forma sem conteúdo, conteúdo sem forma ou nem um, nem outro. Entretanto, os que conseguem conciliar ambos, podem falar, enganar, precaver-se e, o que é deveras importante, calar, pois o silêncio comunica. Paradoxalmente, os que fazem com perfeição a união da forma com o conteúdo extrapolam as fronteiras do cotidiano, com o qual não conseguem manter-se ligados, são estrangeiros da vida comum, e fazem a ARTE.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Objetivos

Sempre temos objetivos, sonhos, esperanças, projetos de vida, mesmo que o projeto de vida seja não ter projetos, esperanças, sonhos ou objetivos. Precisamos de algum tipo de ponto que culmine uma caminhada e satisfaça-nos e, destarte, temos uma razão de viver. Erguemos muitas pequenas conquistas que, muitas vezes, não notamos que as são, para conseguirmos alçar o total cujo benefíco será nosso prazer, nossa felicidade ou um instante de alegria. Contudo, quando o objetivo maior é alcançado, a felicidade é efêmera e traçamos outro objetivo maior, e dessa forma vamos caminhando para algum lugar, vamos, enfim, vivendo. Ou seja, vamos, simultaneamente, morrendo.
Sabemos todos que terminaremos no mesmo lugar, mas precisamos agarrar-nos a algo para fazer da existência algo positivo e prazeroso. Alguns apegam-se a fé, seja ela no que for, outros na materialidade abstrata do pensamento, outros apegam-se no não apego a nada. Criamos ilusões e vamos em direção a elas, mas sem perguntarmo-nos por qual motivo. Talvez, não haja motivo nenhum, sejamos apenas caminhantes vagando pelo mundo, mas, lembremo-nos de que toda caminhada deixa pegadas. Pois, por mais que sejamos notados e reconhecidos, que obtenhamos o desejado, nunca mudaremos nossa condição humana. Nossos anseios e angústias, nosso medos e coragens, nossa saúde e nossa doença, nossa vida e nossa morte, serão sempre os mesmo, tenhamos feito o desejado ou não.
Porém, viver é bom, embora seja ruim. É bom ter alegrias, rir, chorar, sofrer conquistar, aprender, ensinar, ganhar, perder. O ruim é pensar sobre os motivos que nos impelem às ações, o porquê de viver. Ou seja, não pensar muito permite que tenhamos a superficialidade das emoções e que sejam mais "puras", entretanto é assaz reles ter uma existência assim. Então, felizes dos que têm a alienação como base de sua vida! Porém, infelizes, também, por não saberem tudo o que estão perdendo. Isto é, na vida não há nada pleno. Todos os ganhos são perdas, todas as perdas são ganhos, toda a vida é morte e em toda a morte subjaz uma vida.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Miragens

Estamos em meio a um deserto. Tudo o que vemos são miragens. Passamos, praticamente, toda a nossa existência modificando-nos ao ponto de conhecermo-nos em partes, afinal somos sujeitos fragmentados. Se isso acontece com nós mesmos, imaginemos com o que nos é exterior. Já se mencionou, neste espaço, que a diferença entre conhecermo-nos a nós próprios e conhecermos aos outros é que convivemos mais tempo conosco do que com os outros.
A realidade, temo a possibilidade de sentidos que traz consigo esse significante, pode existir em algo que não existe? É real um determinado objeto que não existe? Podemos dizer que não e, assim, damos espaço à ficção, e a realidade de seus elementos se dá dentro de seu universo, ou seja, a instância ficcional. Mas, quando algo existe e não o conhecemos, isso é real? É não sendo. Destarte, o objeto ou fato vai passar ao estatuto de real quando for nomeado. Contudo, nomeamos o que não existe e nem pelo simples ato de havermos nomeado-o passa a ser real. Entretanto, cabe mais um questionamento: as memórias são reais? Elas nos remetem a fatos acontecidos ou imaginados, contudo esses fatos não são mais reais, no sentido que lhes damos, senão apenas memórias, embora possam ser consideradas reais como memórias.
Então, depois desse parêntese, voltemos ao deserto da existência. Será que há algo de real no que vemos? Pois tudo é passível de desaparecer e transformar-se em memória. Objetos, pessoas, fatos, tudo está sobre esse vazio ao qual nomeamos deserto que só pode ser irrigado por uma chuva chamada discurso. Portanto, somos miragens observando outras miragens.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Enunciador coletivo

O que é realmente nosso, no discurso, é um enigma. Sistematizamos, de modo geral, o que falamos, com mais afinco o que escrevemos, mas usamos a memória, ou melhor, o esquecimento como base para criarmos a necessária ilusão da originalidade. Sempre que enunciamos algo, temos presente o mito do Adão lingüístico, pois seria-nos impossível seguir as pistas e buscar o ponto de partida do que está em jogo na instância enunciativa.
Na era clássica, havia o preceito do bom, belo e verdadeiro como partes integrantes de um objeto no qual a ausência de uma das qualidades acarretaria a inexistência de todas. Assim o indivíduo ocupava uma posição de castas, fala como membro de um coletivo. A ascensão da burguesia e com ela o movimento romântico quebram essa estrutura e faz-se presente o conceito de originalidade. O bom, desde esse momento, não é mais o que segue os modelos com perfeição, senão o que cria algo novo. Porém, há algo realmente novo? Ou haverá, apenas, adaptações do que já está dado para formação de algo mudado? Eis uma questão que, à primeira vista, pode parecer menos importante, contudo se há, meras, modificações, por que se discute tanto a originalidade e a criação de novas formas?
É assaz difícil pensarmos algo, completamente, novo. Então, a partir das formas preexistentes, criamos algo diferenciado e isso é o único que podemos fazer. Ninguém se pergunta se o inventor do automóvel, por exemplo, teve uma divina inspiração e o trouxe à luz, ou se pensou que já existiam as carroças e os motores e era possível juntá-los, adicionando outros materiais e chegar a um objeto terceiro. Entretanto, nas artes e nas enunciações cotidianas temos a necessidade de esquecermo-nos do que já está em nossa mente e que reformulamos e afirmamos como nosso. Assim, isto não fui eu que escrevi, é compartilhado por todos e estava, em estado latente, em meu cérebro. Isto tudo é uma simples justificativa pelo uso, neste espaço, do pronome "nós", do qual este enunciador não se desvincula. Então, embora tenhamos o conceito de originalidade, ao que tudo indica, os enunciados jamais deixarão de ser coletivos, mesmo que seja um único sujeito que os formule para o enunciatário.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Já é outubro

O título da postagem, por mais pífio que seja, carrega consigo muitos significados.
Quando estamos na infância, tudo nos é belo, bom. Não problematizamos o mundo que nos cerca e do qual somos parte integrante, obviamente, que isso para os que vivem com condições humanas, pois há quem esteja animalizado pela miséria, o tal Bicho-homem, de Manuel Bandeira. Mas para os que gozam de uma vida que os permita distanciarem-se dos problemas, a infância é uma época sem medos permanentes, sem preocupações recorrentes. O ruim é que dura pouco, muito pouco.
Entretanto, não é a infância que dura pouco, é nossa percepção do tempo que é outra. Hoje, quando percebi que era dois de outubro e o ano está nos seus derradeiros meses, assustei-me (embora este mês seja o de começo da primavera, e esta por sua vez carregue consigo toda uma simbologia de vida, de ressurreição, no hemisfério sul, ela nos aproxima do fim do ciclo anual o qual tomamos como medida de tempo). Talvez, essa percepçao se dê dessa forma porque fazemos diversas coisas das quais não gostamos inteiramente e , com o passar do tempo, prendemo-nos a elas de uma forma cuja a dificuldade de desapego é enorme e, assim conhecemos o tédio. O problema é que os dias passam sem que os tenhamos vivido plenamente, então percebemos que a vida está a passar por nós, em uma velocidade astronômica, e não nós por ela. Os dias passam, contudo não prcebemos que os segundos e os minutos também passam e, por serem pequenos demais para nós, descartamo-los, sem observarmos que são neles que vivemos a vida!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Humanas

Temos requerimentos sociais sempre. Embora não concordemos com diversos aspectos da demanda social, devemos cumpri-los afim de conseguirmos viver. Se não concordamos com o pragmatismo, devemos, diversas vezes, ser pragmáticos; se não concordamos com o capitalismo, temos de receber o salário proposto pelo patrão; etc.
Como já se mencionara em outra postagem, não podemos viver em uma redoma de vidro, pois necessitamos de aceitar múltiplos fatos que não queremos e relegar, a um segundo plano, coisas que, deveras, agradam-nos. Então, entramos na crise de identidade que sofrem todas as carreiras da área de humanidades. Pois, o que fazemos não serve, pragmaticamente, para esta sociedade, por conseguinte tornamo-nos loucos, vagabundos, imprestáveis. Contudo, o que fazer com o conhecimento acumulado? Há diversas pessoas que buscam um fim prático para isso e enjaulam-se em um discurso cujo teor não corresponde, plenamente, aos pragmáticos e, simultaneamente, distancia-os de sua área original das humanas. Sigamos com os poréns. Entretanto, outrora, pela forma como se tinha a concepção de mundo, por parte dos sujeitos ou, mais antigamente, dos indivíduos, era possível enriquecer o intelecto. Atualmente, isso de nada serve se não se ganhar dinheiro. Assim, não somente os valores intelectuais, se não também os de caráter, os morais são rechaçados para cumprir-se o objetivo de angariar fundos para si.
Essa crise de identidade se agrava (claro que menciono isso porque estou imiscuído nesses fatos), principalmente, com quem trabalha com artes. A literatura não tem uma razão de ser, no senso comum, que não seja o entretenimento, então para que alguns estudam a diversão dos outros? Não se deve procurar na literatura algo mais que ela mesma. Todas as formas e expressões, representações e transfigurações que ela carrega consigo podem levar-nos a uma série de arquétipos tão antigos quanto a própria literatura, porém esta nos mostra sempre, ou melhor, tem em estado latente a visão de mundo do sujeito criador. Destarte, podemos aprofundar uma citação de Friedrich Engels, na qual afirmava ter aprendido mais sobre a história da França lendo Balzac que em livros de história. Essa afirmação vai além do realismo (ponto discutível)da obra do escritor francês, pois denota que se podia apreender a visão dos sujeitos sensíveis aos acontecimentos contemporâneos a si. E o que se está a esquecer é essa importantíssima dimensão não só da literatura, mas das artes em geral.
Por sua vez, esse esquecimento traz consigo conseqüências trágicas à sociedade. Observemos a falta de escrúpulos de grande parte dos políticos, a corrupção presente em todos os níveis da estrutura social. Entramos em um círculo vicioso, porque o pragmatismo afasta-nos de nossa essência humana e, afastados, tornamo-nos mais pragmáticos ainda. Solução? Não tenho idéia, afinal não posso perder muito tempo pensando, pois tenho mais o que fazer!

sábado, 26 de setembro de 2009

Estamos sempre presos

Questionamos o mundo ou questionamos a nós mesmos? Talvez, a ambos. É-nos complicado pensar outro modo de vida diferente do que levamos. Não um pensamento referente a como seria minha vida se eu fosse palestino ou mulher, mas pensar em um mundo cuja estrutura fosse completamente distinta da nossa.
Se pensarmos que o berço da civilização ocidental é a Grécia, deveríamos refazer a trajetória de toda a herança cultural por ela deixada e observar que pontos cruciais modificariam nossa construção sócio-cultural. Contudo, podemos pensar nos gregos como herdeiros de uma cultura africana e que os postulados culturais tivessem-nos chegado por meio desta. Mas, há, ainda, mais uma questão de forte pressão que nos levou a ser o que somos: o cristianismo, ou o legado judaico-cristão. Pois, o monoteísmo exerce a exclusão, o rechaço dos deuses, o que nos leva sempre a termos escolhas que converjam para o único, que se trabalhem com eleições nas quais a vitória de um é a dissipação do outro, que não consegue conviver, harmonicamente, com as diferenças. E se o monoteísmo comporta tais características, o cristianismo acentua-as. Pensemos, por exemplos, nos mouros que durante oito séculos ocuparam a Península Ibérica, eles conviveram, pacificamente (termo que deve acarretar diversas restrições), com os habitantes do lugar, permitindo os cultos religiosos, as manifestações culturais, etc, recíproca que não ocorreu, por parte dos cristãos, no momento da reconquista.
Mas a questão é que estamos arraigados aos paradigmas construídos ao longo da história e herdados por nós. Isto é, podemos questionar tudo, pois nada é natuaral (falo em relações sociais), mas não modificaremos quase nada, se conseguirmos modificar algo. A primeira mudança do ser é a interior, mas, por mais que questionemos, mudaremos, apenas, uma pequena parcela, haja vista a impossibilidade de mudarmo-nos totalmente. O que está dito é: pensemos, questionemos, para exercitarmo-nos intelectualmente, para buscar compreender como o mundo funciona, para tentar mudar algo com que não concordemos, mas não nos esqueçamos de que sempre estamos presos a diversos paradigmas sócio-culturais.
"... obedecer é mais fácil que entender. Era? Não sou cão, não sou coisa. Antes isto, que sei, para se ter ódio da vida: que força a gente a ser filho-pequeno de estranhos..."
Grande Sertão: Veredas. Guimarães Rosa.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Quem somos?

Nunca sabemos, nem saberemos, de fato, quem somos. Temos uma percepção, extremamente afetiva, de nós mesmo. Isto é, relativizamos os acontecimentos, as ações e percebemo-nos tendendo ao que queremos ver de nós mesmos. Isso funciona da mesma forma para com os outros. Tencionamos acreditar em quem temos mais simpatia, em perceber a pessoa como desejamos que seja. Também os fatos, tomados como referentes, contamo-los como cremos e queremos tê-los visto. Ou seja, tudo é projeção.
O ser humano, tende a falar em verdade de um acontecimento porque o relata "tal como sucedeu". Mentira! Nunca encontraremos verdades, simplesmente partes suas e que consiguiremos que se sobreponham, se não como a única, pelo menos como a mais legítima, através de um bom discurso argumentativo. Bem, pensarmos em relatividade de percepção dos fatos não é problema algum, a questão problematiza-se se nos pensarmos como fatos exteriores a nós mesmos. Quebramos diversas categorias subjetivas, sem descartá-las obviamente, para projetarmo-nos a nós próprios como um referente externo.
Nosso defeitos não nos incomodam, nossas virtudes são as mais positivas possíveis. Percebemo-nos como a melhor pessoa existente e não compreendemos, na maioria das vezes, como gostos, valores, formas de ação podem distar tanto das nossas. Definimo-nos como alguém mas essa definição que, parte da subjetividade, observa-nos como algo exterior, ou seja, vemo-nos, afetivamente, como alguém. Por que afetivamente? Porque tendemos, quase que na totalidade das vezes, a ter razão, pelo menos para nós.
O problema que os outros têm percepções, muitas vezes, completamente, diferentes de nós e de si. Destarte, somos tantos quantos podemos ser percebidos. Nenhum ser percebe o mesmo fato de maneira exatamente idêntica, se nós somos um fato também, logo somos percebidos de forma diferente por cada um inclusive por nós (sem desejar ser cartesiano). Mas se somos tantas pessoas, uma para cada um, qual será o nosso verdadeiro eu? Que percepção estará mais autorizada? Para isso não há respostas. O único que podemos mencionar é o fato de sermos a pessoas que mais tempo está conosco embora conhecermos e convivermos mais tempo com nós mesmos não é legítimo para afirmar que somos assim, pois somos "assins". Então, somos sombras de nós e nunca sairemos da caverna.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Nosso destino

O destino pode ser uma trama feita a priori ou a resolução de cada ser, em cada uma de suas escolhas, dia após dia. Se o destino for algo predeterminado, quem o predeterminou? Se for algo criado por nós, através de nossas eleições, o que as determina? Sim, sempre há determinações, não somos livres, nunca o seremos. Ou seja, a liberdade não existe, isso sempre é reiterado neste espaço. A questão é: desde já excluímos a primeira hipótese, pois não há uma entidade superior, supra-humana que teça os fios das teias. Resta-nos a segunda opção.
Se pensarmos que somos produtos de nossas escolhas, teremos um obstáculo (a vida é cheia de obstáculos e não seria diferente escrever sobre a existência. Duvidemos de qualquer explicação simplista, em linha reta): o que nos faz gostar disto ou daquilo, o que nos leva a sentirmo-nos atraídos por tal escolha? Pierre Bourdieu tem uma excelente teoria sobre o tema: somos resulatado de nossa trajetória, a questão é que a determinamos, ao passo, que somos determinados por ela. Sentimo-nos atraídos por um "campo" através da "ilusio", e assim damos lugar à ilusão e ao acaso para formar nosso "habitus". Dessa forma somos socialmente determinados e determinamos a sociedade. Explicação satisfatória, contudo apovorante, pois somos forjados por esta sociedade e somos, simultaneamente, seus formadores.
Experienciamos um momento terrível, tanto no âmbito nacional como no global, haja vista a globalização aproximar-nos tanto as mazelas e afastar-nos os ganhos, porque estes são para poucos, pouquíssimos, como sempre o foi. Na nossa América Latina, mas em especial no Brasil, vivemos um momento crítico. A euforia pelo fim da ditadura militar criou uma ilusão de democracia e uma sensação confusa entre liberdade e falta de alguns limites. A liberdade, somente é plena (com todas as restrições que esse termo abarca) se não cercear a liberdade dos demais, porque, na democracia, todos teríamos o direito a ser livres, e a liberdade de alguns não pode acarretar restrições a outros. Nessa senda, estamos a viver um momento limite cujo desfecho pode ser terrível.
Alunos batendo em professores, professores despreparados e sem o conteúdo necessário para modificar a sociedade, a expansão universitária que cada vez nivela mais por baixo os futuros condutores da nação, pois quase não há seres críticos capazes de discernir o porquê chegamos a tal ponto, roubos e assaltos ocorrendo na frente de policiais e os direitos humanos dando liberdade para alguns e, de forma tautócrona, cerceando a liberdade dos outros. Essa quebra de respeito pelas autoridades não serve em uma sociedade capitalista. Se queremos liberdade devemos buscá-la de outra forma, em outro sistema. Não sei em qual, mas os que temos estão esgotados. Nessa senda, desdobram-se outros problemas: cada vez com menos seres críticos, mais distantes ficamos de uma proposta, de uma teoria, de um corolário contundentes para modificar a atual situação. Isso pode desencadear um processo de retorno ao passado histórico e a nova instalação de ditaduras, com grande suporte popular.
Devemos rever conceitos, repensar nossa situação, pois nosso futuro, assim como o nosso passado, são execráveis e a ilusão de que estamos, momentaneamente bem, é a pior das mazelas. Se estamos de olhos fechados, abramo-los e coloquemo-nos a pensar, a respeitar, a vislumbrar a totalidade da sociedade e como essa liberdade é uma ilusão, um circo para quem não tem pão. E a solução pode estar mais próxima de nós do que, deveras, acreditamos embora não seja simples. Mudemos relações cotidianas e, com o passar dos anos, mudarão as relações de poder institucionalizado. A corrupção existe em todos os níveis: furar uma fila, não devolver um dinheiro que nos dão para mais são formas de corrupção em nossa esfera. Repensemos sem, entretanto, tentarmos ser politicamente corretos, isso é hipocrisia, respeitemos aos demais que já nos basta e assim poderemos ser "livres" em nossas escolhas e reponsáveis por nosso destino.
P.S.: Não quero soar retrógrado, muito pelo contrário. Sejamos a vanguarda da liberdade, compreendendo o que esta significa e como podemos ser mais autônomos perante si.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Diminui ou não

Recomeçaram as aulas, recomeçou a rotina agradável dos afazeres acadêmicos. Diversas cadeiras sendo cursada, projeto em andamento, aulas particulares que dou. Por essas razões, PROVAVELMENTE, as postagens fiquem mais esparsas, contudo farei o possível para que isso não ocorra. O problema é a cabeça focada em diversas ações que, muitas vezes, não têm razão de ser neste espaço. Assim, resta-me pouco tempo, infelizmente, para refletir sobre os demais temas que nos cercam e freqüentam, de praxe, este espaço. A reflexão não pára, o que diminui, na verdade, é o tempo para transformá-la em discurso, medianamente, organizado. O pensamento toma quase a totalidade do tempo, e a escrita toma o resto.
Desculpo-me, desde já, se as postagens passarem a ser semanais. Porém, não acreditem, muito cegamente, no que digo, pois a incoerência e a contradição são marcas do blog, do autor; e poderia ser de outra forma? Não, porque a vida é assim: contraditória. Talvez, continue a escrever, como vinha a ser, duas vezes por semana, e esta postagem seja, apenas, um subterfúgio empregado para suprir a ausência de palavras. Não o sei. Somente o tempo ou a falta deste é que o dirão.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Nós e o mundo

Tentemos entender algo, isso já é suficiente. A existência foi declarada aqui, diversas vezes, complexa demais para ser compreendida, então tentemos entender o mundo. Como estamos afetivamente envolvidos com ele? O que somos nós, em pequenez, perante a sua grandeza? O que mudamos nele, e o que ele muda em nós? Creio que nenhuma dessas peguntas será respondida, contudo façamos uma reflexão acerca de tal tema. Uma reflexão, por assim dizer, mais ligada ao senso comum, isto é, não lançaremos mão a Piaget, a Vigotsky ou a qualquer outro que trate do assunto.
Somos parte do mundo, logo somos o mundo. Esse corolário pode levar a uma reflexão sofismática, mas não é esse o desejo que está presente nesta postagem. Somos todos, portanto, responsáveis pelo estado no qual o mundo se encontra. Obviamente, desde o momento em que o homem começou a agir sobre a Terra instrumentalizando-se para otimizar a produção de que necessitava, passou, também, a criar novas necessidades e deixou de viver em estado natural. Isto é, selvagens que vivem em estado natural são mitos, haja vista que, desde o uso de um pedaço de madeira para alcançar uma fruta, em uma alta árvore até o uso de qualquer norma social como não andar nu, embora faça muito calor (não remeto diretamente ao último Freud) são usos de objetos não inerente ao homem, cada qual em seu nível; a própria linguagem não deve ser considerada natural, mas esta é que nos faz representar o mundo e tornara-o o que, atualmente, é. Portanto, os seres humanos, para interagir com o que os rodeia, desnaturalizaram-se, criam ferrementas sem as quais teríamos um tipo de vida bastante distinto do que hoje há.
A vida, atualmente, é concebida da maneira que a vivemos, e, por razões lógicas, não poderia ser de outra forma. O problema é que temos uma relação afetiva com os produtos sem nos darmos conta que tudo vem da Terra, para qualquer processo necessitamos de ingredientes que dela provêm, mas esquecemo-nos que, ao destruirmos o meio, destruimo-nos também. Então, a nossa relação com o mundo modifica-se. Temos os produtos que necessitamos industrializados; não mais precisamos pensar no estado em que o mundo se encontra, logo interagimos com o mundo de forma mediata. A distância que se apresenta nessas relações começa a refletir entre os homens. O ser humano passa a se importar, cada vez mais, consigo e esquece-se das redes de relações com os demais, de maneira tautócrona isola-se mais e começa a fazer parte de pequenas bolhas, com um mundo próprio, chamadas Eu.
Além disso, o mundo passa a exercer a pressão sobre nós. Somos cada vez mais castigados pelos chamados fenômenos naturais que, entre outras qualidades, têm as de não serem naturais, pois são o desenlace da ação humana. As catástrofes assustam, apavoram, aterrorizam mais, e o homem vive com a angústia em estado latente. Vivemos em um mundo que faz tudo em série, inclusive psicopatas, maníacos. Aliás, fabrica homens em série. Acusou-se, por muitos anos, os comunistas de, com o objetivo da igualdade social, quererem transformar os seres todos em imagem e semelhança uns dos outros, e, neste momento, em que o capitalismo põe as oliveiras dos vencedores, em sua cabeça, percebemos o problemático que é não ser igual a todos, o deslocamento obrigatório dos que não concordam com o senso comum.
Enfim, nós mudamos o mundo e ele nos mudou. Essa atividade prosseguirá, simultaneamente, enquanto houver vida que consiga interagir com o mundo exterior e discursivizar essa relação. Destruímos o mundo e ele nos destrói como humanos, animaliza-nos. E, assim, nunca o mundo, nem nós somos iguais. Quando morrermos, poderemos não fazer falta para a totalidade, apenas para algumas pessoas que, com o tempo, curarão as cicatrizes, mas o mundo não será o mesmo, porque essa ínfima parcela não fará mais parte de si.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Mistério

O porquê não o sabemos, mas simplesmente é assim. Assim como? Também não o sabemos. A existência está cheia de mistéros, Fernando Pessoa foi atormentado por eles e assim os transfigurou em sua poesia, mas esses mistérios não estão postos para serem resolvidos, senão para estarem aí, para que busquemos sua elucidação sem êxito, pois não pode haver êxito, o mistério da existência é indecifrável, ele está aí sem razão de ser, e, talvez, como afirmava o poeta citado "o único mistério é não haver mistério nenhum".
Às vezes procuramos obter, através de meios supra-humanos, a razão da existência. A existência basta-se, ela é apenas ela, com um ponto de partida e um de chegada, o que há entre esses pontos costumamos chamar vida. Contudo, é-nos aterrador, insuficiente e, talvez, trágico pensar que o ponto de partida é um mero ponto de partida, e o de chegada não é nada mais do que isso.
A existência é o resultado de nossas escolhas. Somos seres psicologicamente, sociologicamente atrelados. O psicológico tenciona nossas escolhas, o sociológico também as tenciona, e na tensão de ambas as tenções vamos forjando-nos o que somos. Mas somos isto: o resultado da psiqué e do que observamos no exterior. Somos, portanto, cultural e psicologicamente formados.
Que Deus está morto, sabemos desde a época de Nietzsche, contudo, custa-nos acreditar em tal fato. Todas as despedidas são dolorosas, imagine-se a do ser que viveu milhares de anos. Os paradigmas são assaz fortes. Provavelmente, a resposta de tudo, a que não há, a que, apenas, almeja-se, esteja mais próxima das pessoas simples, que muitas vez julgamos de antemão, mas sabem viver e percebem que o mistério é ser feliz. Sim, procurarmos o prazer imediato dá-nos mais prazer que a busca do mistério que ao cabo de tudo seria a felicidade plena. Contudo, para quem já se imiscuiu nas perguntas do mistério inexistente não há mais salvação. Seguiremos com as perguntas atrás das respostas utópicas. Então, acabemos com o bordão de Chicó: "Não sei, só sei que foi assim."

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A tristeza

Quanta tristeza se abala em nosso peito pelo simples fato de sermos o que somos e termos medo que a felicidade, esse instante que assim se chama, acabe. A tristeza, muitas vezes, aparece, no momento, de maior alegria, transvestida de angústia, e esta provém da incerteza de duração contínua da felicidade. Pois sim, temos dificuldade, desconfiança, afinal somos sujeitos pós-modernos (embora eu não entenda muito bem o que isso significa), do que nos acontece de positivo.
Assim como descremos da boa esmola, é uma característica nossa buscar sempre obter vantagem sobre os demais, então desconfiamos do gesto gratuito; assim como lutamos pela liberdade e quando logramos o seu esboço, arrasamo-la e perseguimos tempos de enrijecimento; assim como desejamos o tempo livre, o ócio, o descanso, notamos o deprimente que é um domingo de chuva, não sabemos como usar o tempo; assim como perseguimos a felicidade, quando tocamos esse efêmero momento, não sabemos o que o fazer, aterrorizamo-nos com medo de que acabe, logo não nos aprazemos e, dessa forma, damos lugar a angústia, para que esta descambe para a tristeza.
Não sei se na maior parte do tempo somos tristes ou felizes, ou apenas somos. O que, na verdade, podemos perceber é que a tristeza é mais duradoura que angústia, porém isso pode ser relativizado, pois temos a impressão que o tempo dura mais nos estados negativos que nos positivos. Duas horas de tédio são muito mais tempo que duas de diversão. Destarte, a impressão de duração da tristeza é maior que a da felicidade. Contudo, há um agravante já mencionado: é bastante mais difícil, em um momento de tristeza, a alegria sobrepujá-la que o contrário. Ah, e esses sentimentos são o que são e não os controlamos, infelizmente.
A inexorabilidade dos sentimentos fá-los guiar-nos. Somos tomados pelo êxtase ou pela depressão e não conseguimos combatê-los, por essa razão apelamos a remédios, e somos seres dopados para a vida, pois é assaz complicado agüentá-la de cara limpa. O que podemos tirar disso? É que não conseguimos suportar a vida, esta é um fado e cada um busca solução onde é mais fácil encontrar a saída: remédios, bebida, drogas, suicídio, ou todos. A vida é triste por natureza, cabe-nos vivê-la, o único que não saberemos é o porquê. Talvez, se o soubéssemos a vida fosse feliz, mas, com certeza, não seria esta.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Adeus virtual

As despedidas são complicadas. Isso, todos o sabemos, mas são elas assim porque terminam com uma convivência (mesmo virtual), com uma impossibilidade de recorrer à pessoa ou à coisa que não está mais onde esteve. Nas despedidas lágrimas são lançadas, soluços abafados, embora algumas, apenas, deixem-nos tristes (se é possível que "apenas" possa acompanhar "tristes"). Domingo, no Brasil, segunda-feira, em Portugal, li, via web, uma despedida daquelas que nos fazem termos de repensar muitas situações da vida. Estarrecido, na frente do computador, vi que alguém que, há bastante tempo, acompanho deixa de escrever em seu blog. Ficamos perturbados com esses ocorridos, porque ali havia uma referência, alguém que tinha opiniões admiráveis, que abordava fatos conhecidos e dava-nos um norte, que abordava fatos desconhecidos que nos faziam querer conhecê-los e quando abordava a sua própria vida, dava-nos o deleite de viajar pela língua portuguesa. Uma bela língua! E bem utilizada, mais bela ainda é. Assim, José Saramago despediu-se de seu espaço virtual. Deixando milhares, quiçá milhões de internautas perdidos no momento do dia que era dedicado a ler aquelas belas linhas. A prosa virtual de língua portuguesa perde muito.

P.S. Para quem ainda não conheça o espaço: http://caderno.josesaramago.org/

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Um poeta parnasiano

Podem chamar-me de chato, não seria uma noviade para mim, pois, hoje, dedicarei algumas linhas a um poeta nacional, praticamene, esquecido. Comecemos por fazer algumas ressalvas. A poesia que veio depois do modernismo é encantadora, sublime, expressa o espírito desolado de um ser que vê o mundo em plena transformação e sente-se impotente em relação a isso, fatos que vêm intensificando-se ao longo dos anos, atando forma e conteúdo em uma expressão total da fragmentação. Os poetas clássicos, primavam pela forma, pelo modelo e o seguiam a risca. Admiro, profundamente, essas duas fases, como também a poesia romântica, a primeira expresão moderna de poética, a poesia simbolista com a palavra a ser, cuidadosamente, posta em seu devido lugar, enfim, agrada-me a poesia em geral. Hoje, o tema será um parnasiano.
Movimento, inclusive, por muitos, rechaçado atualmente, o parnasianismo tem caractrísticas sublimes, que antes eu não as havia parcebido. Rejeitem ou não, o outro dia eu estava a ler uma antologia de Bilac. Obviamente, que visto desde o prisma de um homem instaurado no ano de 2009, podem significar pouco, emotivamene, seus versos, porém não foi assim que se deu. Um trabalho incansável, versos alexandrinos, ou decassílabos, cesuras perfeitas, forma e conteúdo postos em contato como as faces de uma moeda, ou como o verso e o reverso de uma folha de papel.
Grande poeta Bilac, sei que essa asserção não vem de um sujeito com autoridade para tal, contudo, deve ser feita. Por último, o mito da objetividade, que podemos desvendá-lo, atualmente, era uma ilusão crida na época. A transfiguração de elementos ditos exteriores ao sujeito poético vinham carregados de sentimentos e, obviamente, da percepção deles por parte do eu-lírico. Fiquei impressionado com a capacidade de encerrar em uma forma tão perfeita elementos exteriores. Olavo Bilac, deveria ser mais lido, sem esquecermo-nos dos que depois dele vêm, é claro.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Morte na luta

Há alguns dias, no interior do Rio Grande do Sul, houve mais um conflito entre os Sem-Terra e a polícia militar. Adivinhemos o resultado. Mais um Sem-Terra morto.
Enfim, os camponeses do movimento são os desordeiros, os marginais, a escória da raça humana, porque ocupam a propriedade privada alheia, são uns baderneiros. Ironicamente, são sempre os da escória que morrem, por disparos de nossa egrégia polícia. O que nunca se comenta, é a situação da mesma constituição que garante a propriedade privada, também exigir que toda a terra deva contribuir socialmente e que, se não o fizer, deve ser desapropriada com a finalidade de que se realize a reforma agrária. Além disso imaginemos a situação:
- O senhor tem direito a esta terra. Agora, ela é sua.
- Obrigado, senhor. Mas é que eu só tenho minha enxada, será que consigo um financiamento pra cultivar?
- Aí, você já quer demais, né, malandro? Já tá com a terra. Aproveita e não reclama.
- Sim, senhor.
Algo de muito parecido aconteceu no México, no começo do século passado, gerou diversas lutas que existem até os nossos dias. Assim funciona a reforma agrária, no país, em que roubar é arte e pichar é crime. Termino com as palavras de um excerto de "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Melo Neto.

ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO

— Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.
— É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
— Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
— É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
— É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
— É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Sem rumo

Que bonita imagem o abraço de Lula com Mercadante hoje. Depois do anúncio de que deixaria liderança do PT, no senado, Aloísio Mercadante voltou atrás. O motivo pelo qual deixaria a função? O arquivamento das denúncias contra Sarney que o Partido dos Trabalhadores votou a favor.
Aí está mais uma cena da comédia, para eles, que tornou a política um drama, para nós. Lula, Sarney e Collor, uma tríplice aliança pelo silêncio. Claro que, se o presidente da república fosse tucano, aconteceria, exatamente, da mesma maneira. As cartas estão na mesa há muitos anos, e o jogo não muda suas regras. Esconder, negar, desconversar, apropriar-se do que não é seu, mentir, estar (ou ser) sem caráter e permanecer na mesma cadeira. Assim é o jogo.
Quando Mercadante titubeou em deixar a função, já se podia prever que não o faria, porque resquícios de ética estão cada vez mais escassos. Fazer algo que esteja dentro da lei, mas que vai contar certos princípios morais, atesta a falta de ética, o esconderijo júridico de nossos políticos e nossa permissividade. Pois, a guinada que deu o PT, nos últimos doze anos, foi mais que um auto-esfacelamento, foi uma retirada de referência do cidadão brasileiro.
Isto é, sendo contra ou a favor do PT, sabia-se que ali estava um referencial de esquerda coerente e confiável, que já não existe. Não há, no Brasil, uma alternativa ética consolidada, o que há são partidos tentando demarcar seu território e mostrando-se como radicais, mas com apenas alguns quadros e sem um apoio popular que forme a base de militância necessária. Portanto, não temos muito o que fazer.
Porque o que faz a oposição hoje, fará a situação amanhã, se esta for oposição, e fa-lo-á da mesma forma, com os mesmo princípios, pois a oposição de hoje, sendo situação manterá e corromperá. Não sei qual seria a alternativa, creio que alguma haverá, pois hoje só vivo dessa esperança.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Mesmo, mas diferente

Fechou-se-me um ciclo ontem, e abre-se-me outro hoje, assim funcionam os aniversários. Não observamos nada de diferente em nossas vidas, exceto os parabéns que nos são dados. Porém, é, apenas, um dia mais que simboliza o transcorrer de um ano, a ser contado a partir do momento em que o mundo começa para cada um. Antes de existirmos, o mundo já estava aí, e assim seguirá quando deixarmos de viver também. Descobrimos, aprendemos o que veio antes, projetamos o que virá, entretanto sentimos apenas o que vivemos ou que nos fazem sentir. Ou não temos a capacidade de emocionarmo-nos com relatos sobre acontecimentos que antecedem a nossa chegada? Lógico que o conseguimos, pois não somos tão insensíveis a ponto de rejeitar as sensações de outros.
Nada mudou, sigo igual. Vivo na mesma casa, escrevo com o mesmo teclado, no mesmo espaço, sinto-me igual a como sentia dois dias atrás, contudo, desde ontem, devo acostumar-me a adicionar um ano no cômputo de minha vida, de minha trajetória, do mundo em relação a mim. Daqui a alguns anos, quando olhar para trás, o número de meus anos servir-me-á para conseguir localizar-me melhor no tempo, e, por que não, no espaço. Todavia, apenas para isso me servirá. De resto, sou mesmo, na mesma casa, no mesmo computador, com as idéias um pouco diferentes, mas não pelo passar da idade, senão pelo passar da vida, que nos faz pensar e repensar tudo, então não sou mais o mesmo, em algo, sou diferente. Mas todos os dias somos diferentes e se isso é uma cosntante, sou igual mais a variável x, logo sou o mesmo + x.

sábado, 15 de agosto de 2009

Coração

Com preguiça de pesquisar o sentido de um assunto, venho aqui afim de que alguém me responda o porquê de uma questão cuja origem desconheço. Por qual motivo foi eleito o coração o símbolo do amor e dos sentimentos? Poderia haver sido qualquer órgão a ser eleito como alegoria máxima dos afetos que há tanto perdura, mas não. É o coração o símbolo do amor. Imaginemos uma outra parte de nosso corpo no lugar desse símbolo. Os rins, por exemplo. O amor viveria em dose dupla para a maioria (eu possuo apenas um, logo não amaria com tanto fervor).
Se pensarmos na antigüidade clássica, observaremos que o amor está associado à dor, ao sofrimento, portanto o campo semântico que o rodeia é do inimizade, do desespero. As pessoas referiam-se ao seus amados como inimigos. Dido referindo-se a Enéas na “Eneida”, de Virgilio, por exemplo. Já na Idade Média e na Renascença não se perdem, totalmente, esses sentidos, contudo, incorpora-se a conotação que o coração é um castelo rodeado de muralhas que deve ser conquistado, daí o termo conquista, significante bélico, relacionado ao amor. Algum tempo atrás o amor passou a ser correlato de companheirismo, fidelidade, amizade. Entretanto, observamos que sempre foi relacionado ao coração. Como se um órgão fizesse desabrochar um sentimento e sustentasse-o, sem imiscuir outra gama de fatores envolvidos no inexplicável mundo dos sentimentos.
A partir dessa idéia, notamos que o amor, como as demais sensações e sentimentos, é uma construção social. Talvez, não a forma como o sintamos, senão as suas exigências e expectativas. Esperamos, queremos e oferecemos uma porção de ações e comportamentos impensados para os nossos ancestrais, cujas ações de prova de amor deveriam mostrar muito mais coragem, decisão, determinação, independente da doação ao companheiro. E, atualmente, o amor passou a ser algo tão egoísta como os seres de nossa sociedade.
A sociedade penetrou tanto em cada um de nós, conseguiu afastar-nos tanto em relação a trocas afetivas reais, através da globalização, que nos aproxima e afasta-nos, em movimentos simultâneos, que o único amor mais duradouro é o amor próprio. Não fazemos nada que possa prejudicar-nos um pouco em prol de um grande ganho coletivo, pois, qualquer coisa que nos afete é refutada imediatamente. Pensamos em nós, queremo-nos, amamo-nos, mas, apenas, a nós. O amor a outra pessoa chamado solidariedade, senso do coletivo, está, praticamente, em extinção. Todavia, é o coração o órgão do amor próprio, embora esse tipo de amor seja o mais racional possível, porque pondera prós e contras, põe tudo em uma balança e vê se é bom para si, se consegue levar vantagem, vale a pena. Em outros tempos isso não se fazia com o coração, pois este se associava a instinto, a impulsividade.
Mário de Andrade, em seu livro “Amar, verbo intransitivo”, disse muito, pois quem ama, ama. Porém, esse título pode ser revisto hoje sobre outro prisma, porque se as pessoas amam a si mesmas, obviamente, esse verbo pode ser intransitivo, pois não é necessário dizer a quem se ama. Mas quem segue amando é o coração, e presenciamos o fim do amor, conhecê-lo-emos pela história e pela literatura, quando os seres eram seres e amavam uns AOS OUTROS.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Incoerência

Vemos, freqüentemente, intelectuais a declarar que a negação de algo, inclusive, do conhecimento de idéias que confrontamos caracteriza a ignorância. Concordo. Contudo há incoerência na atitude destes também, pois diversas vezes negam a alteridade de forma totalitária e com a mesma veemência que asseveram a ignorância.
Falo sobre o tema, porque há alguns dias, em um fórum de literatura, na internet, alguém mencionou o futebol e houve uma reação, creio eu, exagerada de parte de alguns circunstantes virtuais. Estes começaram a clamar o futebol como símbolo da ignorância do povo. Claro, sou um torcedor de futebol, um adorador desse “esporte”, que, hoje, mais é um comércio que, verdadeiramente, um esporte, porém o mesmo vale para as novelas, embora eu não as olhe, também não as repudio.
Podemos assistir a novelas, ver jogos de futebol, ir ao estádio, comemorar, gritar gol, contudo o que não se deve fazer é fechar os olhos para o resto dos acontecimentos que nos completam a vida. Isto é, assistir a novelas não é um problema, se o gosto individual as requer como fonte de entretenimento, o problema é que esta, na maioria das vezes, passa a reger a vida do povo, seus comportamentos, atitudes, vestimentas, seus heróis e ídolos. A novela e o futebol, usamos o termo novela em sentido metonímico para a televisão em si, têm, hoje, um papel parecido ao que a religião católica exercia anos atrás. Isso é uma desmedida grave, afinal, passamos a viver a ficção e tê-la como dogma, ou o esporte como dádiva, e sempre deus ao lado dos vencedores, como a religião fazia em massa e, atualmente, fá-lo com menor quantidade de pessoas.
Nada impede que um telespectador, um torcedor, um religioso conheçam literatura, filosofia, política, artes, etc. A questão fundamental está na escala de valores. Se sobrepujarmos conceitos menos importantes como guia de nossas vidas, teremos uma existência menos importante também. Se adotarmos idéias, ideologias de outros como nossas, nunca teremos a reflexão sobre o porquê vivemos e, enquanto isso, enriquecemos cofres alheios, e tornamo-nos pobres de espírito. Negar a alteridade é ignorância seja qual for o sentido dos vetores. Um fanático por novelas que pensa que a política é uma porcaria que não vale a pena ser entendida é tão ignorante quanto um “filósofo” cuja crença é que o futebol é veículo de alienação, pois o respirar futebol, sim pode ser alienante, mas o saber que existe e, se se gosta, acompanhá-lo é diversão.
Quanto mais pudermos usufruir de tudo que nos dê prazer, sem nos esquecermos de que a vida é uma, curta, rápida e a totalidade é bem maior que essa pequena coisa chamada ser humano, melhor. Enriqueçamo-nos intelectualmente e regozijemo-nos com o que nos dá prazer, para não sermos incoerentes com o nosso discurso.