terça-feira, 22 de setembro de 2009

Quem somos?

Nunca sabemos, nem saberemos, de fato, quem somos. Temos uma percepção, extremamente afetiva, de nós mesmo. Isto é, relativizamos os acontecimentos, as ações e percebemo-nos tendendo ao que queremos ver de nós mesmos. Isso funciona da mesma forma para com os outros. Tencionamos acreditar em quem temos mais simpatia, em perceber a pessoa como desejamos que seja. Também os fatos, tomados como referentes, contamo-los como cremos e queremos tê-los visto. Ou seja, tudo é projeção.
O ser humano, tende a falar em verdade de um acontecimento porque o relata "tal como sucedeu". Mentira! Nunca encontraremos verdades, simplesmente partes suas e que consiguiremos que se sobreponham, se não como a única, pelo menos como a mais legítima, através de um bom discurso argumentativo. Bem, pensarmos em relatividade de percepção dos fatos não é problema algum, a questão problematiza-se se nos pensarmos como fatos exteriores a nós mesmos. Quebramos diversas categorias subjetivas, sem descartá-las obviamente, para projetarmo-nos a nós próprios como um referente externo.
Nosso defeitos não nos incomodam, nossas virtudes são as mais positivas possíveis. Percebemo-nos como a melhor pessoa existente e não compreendemos, na maioria das vezes, como gostos, valores, formas de ação podem distar tanto das nossas. Definimo-nos como alguém mas essa definição que, parte da subjetividade, observa-nos como algo exterior, ou seja, vemo-nos, afetivamente, como alguém. Por que afetivamente? Porque tendemos, quase que na totalidade das vezes, a ter razão, pelo menos para nós.
O problema que os outros têm percepções, muitas vezes, completamente, diferentes de nós e de si. Destarte, somos tantos quantos podemos ser percebidos. Nenhum ser percebe o mesmo fato de maneira exatamente idêntica, se nós somos um fato também, logo somos percebidos de forma diferente por cada um inclusive por nós (sem desejar ser cartesiano). Mas se somos tantas pessoas, uma para cada um, qual será o nosso verdadeiro eu? Que percepção estará mais autorizada? Para isso não há respostas. O único que podemos mencionar é o fato de sermos a pessoas que mais tempo está conosco embora conhecermos e convivermos mais tempo com nós mesmos não é legítimo para afirmar que somos assim, pois somos "assins". Então, somos sombras de nós e nunca sairemos da caverna.

7 comentários:

Paula F. Campos disse...

Não acho que exista "o verdadeiro eu". Somos seres em constante movimento, em busca, em vazio, em miséria. Somos seres egocêntricos, presos a coisas que não têm valor nenhum. Somos apegados a idéias que são totalmente efêmeras e que, muitas vezes, já morreram. Somos medrosos e incapazes de sentir compaixão. Somos incapazes de amar, pois só vemos no mundo a projeção de nossos medos e desejos: não vemos o mundo - como você citou.
Para podermos entrar em contato com nós mesmos precisamos observar as sensações corporais que nos ocorrem sem reagir mentalmente a elas. Seríamos capazes de tal proeza? Apenas observar e deixar ser o que é: pois sensações passam se as observarmos passar. O que faz com que elas fiquem é o nosso apego a elas, nossa percepção afetiva. Ou seja, nós é que criamos nossos tormentos, seja pelo apego à desgraça (aversão à dor), seja pelo apego ao prazer (desejo de obter mais prazer).
A solução só pode estar próxima da morte do ego... na solidariedade, no serviço ao outro, no desapego, na compaixão,na dedicação incansável ao trabalho de desvelar nossas ilusões. É sentar no monte de ##### do ego e ficar ali, sem querer desesperadamente sair, sem desejar estar em outro lugar e vivenciar a dor de ser isso mesmo: um ser insignificante que perpetua a própria miséria a cada ínfimo ato. Se há esperança? Muita. Para aquele que escolher sentar nesse lugar desconfortável o tempo suficiente para deixar de se preocupar com o próprio destino e aceitar com gratidão todas as sensações que a vida traz.
Namaste!

°annE | Q Mania BRECHÓ disse...

Não tenho certeza do "eu" meu que eu conheço, mas agora, pelo menos ele sabe que não é único. Nunca havia pensado nessa quantidades de "eus" que eu posso ser.... Muito bom pensar sobre isso...

Rodrigo Bentancurt disse...

Paula, concordo com tua bela prosa. Mudo e idéias, ou melhor, renpenso-as. Convido-te a ler "Coração" e "Medo do escuro", porque acho que completam idéias aqui e também vão ao encontro do que disseste.

Paula F. Campos disse...

okay! Vou ler! Obrigada pelo elogio... e fico feliz de te levar a repensar... você também me fez refletir com o feedback que me deu a respeito de meu texto sobre a morte... tudo é metáfora não é? Você pode ver tudo com tamanha objetividade e simplicidade... Isso me agrega muito... A gente tem que deixar de ser quem a gente acha que é para sermos que a gente realmente é!
Te convido a ler "Aqui estou" e "Sobre não ter o que falar".
Ambas retratam o exercício do desapego... o contato pacífico com o vazio...

Débora disse...

Somos seres em construção, não existe uma verdade absoluta, não enquanto realidade cognoscivel, já que só temos do outro nossos pensamentos, sensações e reações em atrito com este outro. Mas isso não impede de reconhecermo-nos e identificarmo-nos criando um eu com o qual podemos dialogar internamente e não ficarmos perdidos num mundo de sensações e impressões, nossos preconceitos e o chamado "senso comum" as convenções coletivas (por favor não me tache de conservadora) são necessários para uma convivência em sociedade, se questionarmos tudo o tempo inteiro, não conseguiriamos nos alimentar refletindo nas opções gastronomicas existentes, desde alimentação por sonda até consumo exclusivo de plantas, ou substituição de comida caseira por pílulas de nutrientes. O que digo é que é muito bom questionarmos nossas convicções eventualmente e salutar difundir essas idéias, porém para um pouco de segurança (nem que esta possa ser vista como artificial) temos que nos ater a pontos referenciais pradigmaticos razoavelmente consistentes, coisa rara na modernidade líquida em que vivemos. Espero não ter sido muito prolixa, valeu pela oportunidade de me expressar. Fiz um blog recentemente se quiser da uma passada lá: http://deboraddc.blogspot.com/
Fique em paz!

Rodrigo Bentancurt disse...

Débora, somente para especificar algo. O simples, leia-se "simples", fato de escrever, ou melhor, de exteriorizar nossas idéias em um espaço aberto para discussão já é um apego pragmático. Outra coisa, creio que atualmente o que se sobrepões é o pragmático. O sujeito age e não dispensa tempo para refletir. Abraços

Débora disse...

Valeu pelo retorno,só uma obs: ok o apego em demasia faz com que maximizemos nossas sensações de modo a causar desequilíbrios emocionais e porque não dizer espirituais, mas se nos desapegarmos de tudo o que sobrará além de um imenso vazio? Estou sendo radical? Ou será que não compreendi ainda o verdadeiro sentido do desapego? Quanto ao pragmatismo, concordo com você, mas a ênfase que eu quis dar foi a falta de consistência e sentido, isto é a fragilidade com que as relações se constrem e desconstroem, sem referenciais sólidos para pautarem suas ações. O indivíduo não tem mais uma carreira em uma empresa para a vida inteira, seu emprego muda quase como se troca de carro. Suas amizades são temporárias e predomina uma visão aí sim prágmatica e utilitarista das coisas.Se somos pragmáticos? Sim somos induzidos a agir de acordo com a corrente estamos sempre correndo contra tempo, somos filhos do tal do Time is money...e sobra pouco tempo para pensar no porque de tudo isso e se esse consumismo exagerado (de tudo inclusive produtos culturais) é desejável, meu sonho é que possamos ,enquanto sociedade, repensar o significado das coisas que fazemos e possamos apreciar as belas coisas da vida. Fique em paz!