sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Chuva de pedras

Chovem pedras sobre nossas cabeças. Após um belo dia de sol interior, como sempre escassos, abatem-se, sobre nós pedras, de mundo real, com seus jogos curéis, postergando o sonho para depois. Mas, estamos vivos, portanto temos de viver, e, por mais que nos refugiemos em nosso interior, somente, conseguiremos jogar um facho de luz à chuva.
O mundo, a existência, a interação dos sujeitos com os objetos podem e, na maioria das vezes, são dolorosas. Refugiar-se é uma alternativa, pois todos queremos proteger-nos, porém, isso, apenas, retarda o intervalo entre uma pedrada e outra. Então, uma opção mais segura (seguindo, de longe, a criação mítica do homem segundo a civilização maia-quiché) seria, ao longo do tempo, construírmos guarda-chuvas de materiais resistentes. Tentemos, para começar, um de madeira. Este pode resistir às primeiras pedras, contudo, rapidamente, cederia. Passariam muitos anos, e depois de diversos intentos frustrados, com diversos materiais, chegaríamos ao guarda-chuva de aço cuja resistência aceitável satisfar-nos-ia, e, embora esse não se rompa diante das mais poderosas tempestades, nas quais após levar uma pedrada na cabeça, recompormo-nos, levaríamos outras tantas, sempre haverá respingo de pedras a nos atingir.
Pensamos que essa é a melhor alternativa, contudo observamos não nos mantermos invulneráveis. Isso é lógico, pois somos seres frágeis! Poderíamos, então, haver construído uma bolha, uma bolha inatacável, seria mais rápido, útil e seguro. Mas, se a construíssemos, nunca seríamos atingidos pelas chuvas de pedras. Bem, podemos perguntar-nos: não era esse o objetivo? Sim e não. Porque, ao passo que, não somos atingidos pelas pedras, também não nos relacionamos com o mundo e, se assim se desse, para que existir? A existência é ataque e defesa, perda e ganho, belo e feio, amor e ódio, e demais antíteses. Existamos, sejamos atingidos, atinjamos também, ou seja, vivamos! Para que um dia, de nós, a chuva de pedras emane.

2 comentários:

Débora disse...

Rodrigo, nem sempre a chuva é de granizo há vezes em que a precipitação vem em forma de neve, outras em pingos espessos, outras em gotas quase imperceptíveis e veja só tem vezes que até sai um sol! Vou usar outra metáfora para corroborar o que vc dizia, dizem que as pedras na nascente são muito irregulares e na foz já são mais arredondadas, acho que somos como as pedras e temos que nos deixar atingir um pouco nos Afetar, nos importarmos, sentir enfim e amadurecer com as experiências!
Abraço

Rodrigo Bentancurt disse...

Interessante. Eu não tinha pensado em granizos, tinha pensado em pedras de concreto e não de água. É bom ver como ninguém consegue conduzir o sentido. E ainda bem que é assim, de outra forma não existiria a literatura. Eu também acho que nem sempre a chuva é de pedras, mas essas são as que machucam mais. Abraço