sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Nós e o mundo

Tentemos entender algo, isso já é suficiente. A existência foi declarada aqui, diversas vezes, complexa demais para ser compreendida, então tentemos entender o mundo. Como estamos afetivamente envolvidos com ele? O que somos nós, em pequenez, perante a sua grandeza? O que mudamos nele, e o que ele muda em nós? Creio que nenhuma dessas peguntas será respondida, contudo façamos uma reflexão acerca de tal tema. Uma reflexão, por assim dizer, mais ligada ao senso comum, isto é, não lançaremos mão a Piaget, a Vigotsky ou a qualquer outro que trate do assunto.
Somos parte do mundo, logo somos o mundo. Esse corolário pode levar a uma reflexão sofismática, mas não é esse o desejo que está presente nesta postagem. Somos todos, portanto, responsáveis pelo estado no qual o mundo se encontra. Obviamente, desde o momento em que o homem começou a agir sobre a Terra instrumentalizando-se para otimizar a produção de que necessitava, passou, também, a criar novas necessidades e deixou de viver em estado natural. Isto é, selvagens que vivem em estado natural são mitos, haja vista que, desde o uso de um pedaço de madeira para alcançar uma fruta, em uma alta árvore até o uso de qualquer norma social como não andar nu, embora faça muito calor (não remeto diretamente ao último Freud) são usos de objetos não inerente ao homem, cada qual em seu nível; a própria linguagem não deve ser considerada natural, mas esta é que nos faz representar o mundo e tornara-o o que, atualmente, é. Portanto, os seres humanos, para interagir com o que os rodeia, desnaturalizaram-se, criam ferrementas sem as quais teríamos um tipo de vida bastante distinto do que hoje há.
A vida, atualmente, é concebida da maneira que a vivemos, e, por razões lógicas, não poderia ser de outra forma. O problema é que temos uma relação afetiva com os produtos sem nos darmos conta que tudo vem da Terra, para qualquer processo necessitamos de ingredientes que dela provêm, mas esquecemo-nos que, ao destruirmos o meio, destruimo-nos também. Então, a nossa relação com o mundo modifica-se. Temos os produtos que necessitamos industrializados; não mais precisamos pensar no estado em que o mundo se encontra, logo interagimos com o mundo de forma mediata. A distância que se apresenta nessas relações começa a refletir entre os homens. O ser humano passa a se importar, cada vez mais, consigo e esquece-se das redes de relações com os demais, de maneira tautócrona isola-se mais e começa a fazer parte de pequenas bolhas, com um mundo próprio, chamadas Eu.
Além disso, o mundo passa a exercer a pressão sobre nós. Somos cada vez mais castigados pelos chamados fenômenos naturais que, entre outras qualidades, têm as de não serem naturais, pois são o desenlace da ação humana. As catástrofes assustam, apavoram, aterrorizam mais, e o homem vive com a angústia em estado latente. Vivemos em um mundo que faz tudo em série, inclusive psicopatas, maníacos. Aliás, fabrica homens em série. Acusou-se, por muitos anos, os comunistas de, com o objetivo da igualdade social, quererem transformar os seres todos em imagem e semelhança uns dos outros, e, neste momento, em que o capitalismo põe as oliveiras dos vencedores, em sua cabeça, percebemos o problemático que é não ser igual a todos, o deslocamento obrigatório dos que não concordam com o senso comum.
Enfim, nós mudamos o mundo e ele nos mudou. Essa atividade prosseguirá, simultaneamente, enquanto houver vida que consiga interagir com o mundo exterior e discursivizar essa relação. Destruímos o mundo e ele nos destrói como humanos, animaliza-nos. E, assim, nunca o mundo, nem nós somos iguais. Quando morrermos, poderemos não fazer falta para a totalidade, apenas para algumas pessoas que, com o tempo, curarão as cicatrizes, mas o mundo não será o mesmo, porque essa ínfima parcela não fará mais parte de si.

2 comentários:

Fyllos disse...

Ninguém é igual... prova simples : nosso código genético.Mas, a visões de mundos aproximadas, como a minha e a sua o são.Deste modo, a felicidade de saber que existe seres como voçê...
Me faz querer o degustar intímo do vinho :)

BEIJOS!

Rodrigo Bentancurt disse...

Ainda bem que existem semelhanças!