sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Forma e conteúdo

Forma e conteúdo, instâncias importantes não só na linguagem literária, como também no cotidiano. Se o que se fala é importante, a forma de fazê-lo não o é menos. Todos sabemos que o mesmo conteúdo pode ser expresso de diversas formas. Então, o que nos cabe é saber adequar a forma à situação propícia. Amenizamos, modalizamos os enunciados quando damos uma triste ou grave notícia; somos rudes ou ternos quando desejamos mobilizar, tirar outrem da pusilanimidade. Ou seja, a forma expressa o conteúdo a fim de gerar determinado efeito, ou amenizá-lo, o que, na quase totalidade das vezes, é incotrolável.
Contudo, podemos trabalhar a forma, enchê-la, simplesmente, de forma e esvaziá-la de conteúdo. Somos pegos de surpresa por uma questão que não sabemos a resposta, e nosso orgulho faz com que desenvolvamos, ordenadamente, um aglomerado de palavras cujo significado fica relegado a segundo plano, e, assim, logramos o efeito de parecer que sabemos de algo que não temos noção. Portanto, enganamos aos outros e, em parte, a nós mesmos. E quando contamos uma mentira na qual os demais acreditam. Há um conteúdo modificado ou, apenas, existente em nosso intelecto, e o expressamos em uma forma tão verossímil que passa ao estatuto de verdade. Destarte, podemos ser ludibriados, enganados pelos outros da mesma maneira que podemos enganá-los.
Também há os que têm muito a dizer, mas, por uma série de razões, não conseguem expressar o que desejam, ou não têm altura, na voz, para serem ouvidos. Já vimos pessoas que não tiveram acesso à educação formal, ou uma educação precária, porém fazem uma leitura de mundo extremamente peculiar e interessante e são deixadas para trás pelos com forma-sem conteúdo. Às vezes, percebemos o quão profunda é uma reflexão desse tipo e vemo-la tolhida.
Não sei, se este espaço é adequado para se discorrer sobre forma e conteúdo, porque, na maioria das vezes, se tem forma sem conteúdo, conteúdo sem forma ou nem um, nem outro. Entretanto, os que conseguem conciliar ambos, podem falar, enganar, precaver-se e, o que é deveras importante, calar, pois o silêncio comunica. Paradoxalmente, os que fazem com perfeição a união da forma com o conteúdo extrapolam as fronteiras do cotidiano, com o qual não conseguem manter-se ligados, são estrangeiros da vida comum, e fazem a ARTE.

Nenhum comentário: