quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Tudo e nada

Não sei ao certo quem sou. Muitas vezes me olho no espelho e penso se esse que vejo serei realmente eu ou um eu simplesmente projetado que não pode ser eu, porque eu sou o que não está projetado diante do espelho. Isto é bastante simples, pois o que vejo é o que quero ver, ou melhor, o que posso ver, porque estou condicionado a isso.
Quando nos vemos, simplesmente enxergamos o que queremos, pois para mim eu sou uma pessoa, isto é, para mim eu sou o que somente sou para mim. Outros vêem-me de maneira completamente distinta, assim como eu os vejo de forma diferente a qual eles fazem os auto-retratos de suas vidas. O que eu represento para o outro não é o que desejo, senão a maneira como as pessoas apreendem o que eu desejo representar. Esse jogo de espelhos produz as impressões que temos dos outros e de nós mesmos. Logo, a vida é um jogo.
À parte o sofisma, eu gostaria de entender por que dizemos que somos tal ou tal coisa, e não tal e tal coisa? Somos qual destes prismas? O que queremos ser, o que pensamos ser ou que os outros pensam que somos?Esses outros compartem a mesma visão?Não. Apesar de sermos todos iguais, somos todos profunda ou superficialmente diferentes. Não há seres iguais, tudo o que podemos encontrar são semelhanças que, muitas vezes, o tempo dissipa.
Creio que somos um conglomerado de eus, pois não podemos dirimir todas as perspectivas pelas quais nos enxergamos ou pelas quais somos vistos. Somos simultaneamente simpáticos e antipáticos, decididos e sem poder nenhum de decisão, românticos e brutos, enfim o ser é antitético em sua essência. Não classifiquemos, por conseguinte, os humanos. Não somos somente algo, somos, concomitantemente, tudo. Sempre que reduzirmos homens e mulheres a rótulos, estaremo-lo fazendo segundo nossa perspectiva, então fazemos uma abundante redução: a de todos os outros pontos de vista envolvidos, logo estamos praticando a ignorância no que ela tem de mais oculto. Porque, ser o dono da verdade é desprezar todas as outras verdades e ser simplesmente o dono da ignorância.

7 comentários:

°annE °criS disse...

Nossa! Tem um eu meu querendo comentar mto.... mas outro q não sabe bem o que dizer. Pensarei +...

Rodrigo Bentancurt disse...

É a nossa luta diária contra os nossos eus

Gabi disse...

"je est un autre" já dizia Rimbaud. Há um livro muito interessante que trata da subjetividade, do filósofo Paul Ricoeur. O livro se chama " O si-mesmo como outro"

"Eu minto mas minha voz não mente
Minha voz soa exatamente
De onde no corpo da alma de uma pessoa
Se produz a palavra eu"

deu pra ver que não tem nada de substancial meu aqui, nada meu do meu eu

[so comentei pra que tu perceba que estou em casa e estou bem e pouca coisa me abala, por isso, retorno dia 9 de março à terra do vento norte ou pro norte do meu vento]

Rodrigo Bentancurt disse...

Belo comentário e ótima notícia.

Argus disse...

Eu ia comentar, mas aí veio o "Mim" e disse:- não fala besteira Eu.
A Minha consciência presenciando essa discussão declarou:- Vocês dois não sabem de nada, tenho segredos no fundo da Alma!
A Alma imediatamente disse:- Não me ponham no meio dessa discussão, já tenho problemas existencias demais.
Após horas de discussão o Eu desistiu de comentar!!!

Anônimo disse...

eu gostei disso. da ignorância da verdade única e própria... e quando diminuímos alguém através de rótulos. Através de uma pré-catalogação, muitas vezes pré-conceito... sempre penso muito a respeito. pena que ainda vivo no "o que será que os outros pensam de mim".
Liziane

Anônimo disse...

aliás, não gosto dessa diminuição dos outros, através de rótulos. o que eu gostei foi do teu texto!
Lizi

P.S.: sempre me interpreto mal... tsc tsc tsc