sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Corrupção

O nosso uso da palavra sem ter compromisso nenhum com a palavra é uma espécie de corrupção como tantas outras que criticamos diariamente. A tão execrada corrupção política não é o que nos faz ser corruptos em diversas esferas do nosso cotidiano, e sim essa corrupção corriqueira é que se reproduz nas esferas do poder (pensando em uma lógica foucaultiana)
Quando pensamos que podemos agilizar um processo na justiça ou passar a frente de diversas pessoas em uma consulta médica, pois conhecemos as pessoas indicadas para darem velocidade ao que precisamos e julgamos ser mais urgente para nós do que para outros, não é somente uma demonstração de egoísmo, senão um exercício da nossa tão próxima e entranhada corrupção.
Sem mencionar as muitas vezes que somos desonestos em jogos com amigos, somente pela arte de tirar vantagem e o desejo de ser visto como o melhor, sendo que para isso atropelamos o valor ético da vida. Além destas já citadas formas de corrupção, temos, ainda, a inefável capacidade de silenciarmo-nos quando recebemos dinheiro a mais em uma pequena quantia, por acharmos que não fará falta a ninguém, e a avidez de encher a boca de impropérios a políticos que desviam milhões em orçamentos que são de bilhões. Eles também têm o direito de achar que milhões são pouco dinheiro perto dos bilhões que (es)correm pela nação.
Não estou aqui a defender a corrupção, mas a pedir que nos olhemos e tentemos perceber que somos muito bons para apontar o dedo para os outros e jamais virar o índice para nosso lado. Somos corruptos, em diferentes esferas, em diferentes quantidades, que julgamos ser desimportantes, porém somos corruptos. O quão maléficos somos uns com os outros. Deveríamos, em uma atitude bastante, bastante, bastante cartesiana dizer: Corrompo, logo existo.

4 comentários:

°annE °criS disse...

Concordo absolutamente.... mas isso tudo me faz pensar em "como viver neste mundo hoje?", um lugar onde se não estamos corrompendo, enganando, dando o famoso "jeitinho" torna-se quase impossível alcançar algum objetivo, por menor que ele possa parecer, lugar que é mais fácil ver pessoas honestas sofrendo com a falta ou com a perda de algo ou com alguma injustiça do que pessoas corruptas de caráter duvidoso esbanjando riquezas e futilidades...
Depois de todo esse pensamento "ilógico" chego quase a uma solução....não pensarei mais sobre isso porque a minha impotência em relação a isso me deprime.

Rodrigo Bentancurt disse...

Mas é essa justamente a questão. Se para alcançarmos nossos objetivos, temos que passar por cima de valor éticos, vale a pena esse objetivo?e se vale, quanto vale para eu infringir minha moral?

°annE °criS disse...

É que esse mundo já está tão poluído com esses "podres" da sociedade que é difícil diferenciar o certo do errado, o ético do anti-ético.... Dentro dos meus conceitos de ética, muita coisa está errada, mas quem sou eu pra, sozinha, mudar isso? Eu mudo onde e como posso, pelo menos não me juntando com quem julgo errado e também não dando ibope... mas, é o que posso... pelo menos por enquanto...

Rodrigo Bentancurt disse...

Mas é essa, justamente, a questão. Quantos pensam igual a nós e não se articulam para mudar esses valores? O Eduardo Galeano tem um livro chamado Patas Arriba:La escuela del mundo al revés, cuja essência é mostrar o lado dos derrotados em uma sociedade que premia os enganosos e subjuga os éticos.