sábado, 11 de julho de 2009

Poetas no poeta

Creio que toda a especulação acerca da vida dos escritores, a busca de um biografia transfigurada na obra, falar do poeta dentro de sua poesia não passam de fofocas literárias. O texto literário vai ter, sim, de pano de fundo uma relação entre o homem e a sociedade, mas não, necessariamente, aquele indivíduo empírico que pegou o lápis e pôs-se a verter palavras sobre as linhas. O que temos na obra é um autor implícito, uma projeção da relação homem/sociedade em uma determinada época. Contudo, essa introdução que faço não passa de subterfúgio para falar, não da obra, mas da vida de um dos maiores escritores de língua portuguesa de todos os tempos.
Fernando Pessoa, além de poeta, foi um dramaturgo da não literatura (não encontro melhor expressão para o que o senso comum sói chamar vida real). Em um mundo que estava à beira da primeira grande Guerra, nascem os heterônimos de Fernando Pessoa. Cada um com seu estilo, com sua biografia, com seu mapa astral, com a sua poesia. É incrível lermos um poema de Alberto Caeiro e uma ode de Ricardo Reis e reconhecermos, facilmente, que se trata de poetas muito diferentes entre si, porém, empiricamente, foi a mesma mão que os escreveu. Esses heterônimos eram personagens de um mundo cotidiano, publicavam artigos, trocavam correspondências e procuravam, através de textos - e de outra forma não o poderia ser - comprovar a sua existência como homens de carne e osso.
O teatro de poetas de Pessoa tinha suas personagens principais no modernista Álvaro de Campos, no pastor metafísico Alberto Caeiro e no clássico produtor de odes Ricardo Reis, este residente no Brasil. Cada um desses poetas cria uma imagem de poeta e, por conseguinte, um eu-lírico que torna difícil acreditarmos nas questões de um autor enquanto sujeito no mundo, senão como mão que deve escrever. Afinal, já não estou a falar da biografia.
Pois bem, Fernando Pessoa poeta e dramaturgo da poesia, entendamos o dramaturgo como criador de poetas, funcionário público português e com ligações a certo ocultismo de Alister Crowley, o mesmo que era cantado por Raul Seixas. Creio que da vida do poeta é o que tenho a falar, porque da neurastenia acho que é prescindívil devido ao fato do esforço intelectual dispensado pelo poeta.
Portanto, sem especulações sobre a sua e vida e com um deleite propiciado pelos poetas que foi Fernando Pessoa, inclusive quando assinava seu nome de registro, que nos pode importar a sua vida? Nada. Temos a sua poesia.

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