segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Seco

Certa vez, contou-me um amigo uma história sobre um homem seco. Ele me dizia que esse homem fora extremamente emotivo e sensível ao longo de sua vida. Via um cachorro sendo maltratado e abria a torrente de lágrimas; lembrava-se de algo triste, caía aos prantos; algo perturbava-o, chorava de maneira incontrolável. Mas um dia as lágrimas secaram quase que completamente. Uma catástrofe acontecia, e o homem parecia impassível; alguém muito próximo adoecia gravemente, e ele parecia indiferente. 
Contudo, meu amigo disse-me que havia algo de diferente nesse homem, pois ele não permanecia inalterado, senão suas lágrimas haviam secado. Achei a história um pouco estranha e havia me esquecido dela, até que conheci, tempos atrás, esse homem, tornei-me seu amigo íntimo, ele contou-me, então, sua peculiaridade. Não fosse ouvir de sua boca, não acreditaria naquilo. Ele se abalava da mesma forma que dantes com o que de ruim lhe acontecia, sentia toda tristeza e angústia próprias desses momentos, mas não chorava, aliás, segundo ele chorava, mas sem lágrimas e dizia que era pior do que chorar compulsivamente; primeiro, porque não consegui tirar a angústia e a tristeza de si, mantendo-as em seu interior, sem expurgá-las, mantinha-as no seu interior sendo cada vez mais abalado por essas coisas; segundo, porque as pessoas acreditavam que ele era um homem seco, incapaz de sensibilizar-se diante das adversidades. 
Essa é a história do homem que todos achavam que era seco por dentro, e vocês não sabem o que é pior, percebi que ele era mais infeliz que o mais emotivo dos homens. 

3 comentários:

Débora disse...

O interior de um homem é um universo a ser explorado, as vezes a vida nos faz duros, pela dita necessidade em se adaptar acabamos refreando nossas emoções a um nível aceitável, mas elas não deixam de existir. Eu optei por me expressar escrevendo e compartilhando por meio da palavra que capta um pouco a sutileza da vida senão acho que seria tão infeliz quanto o homem da história que enclausurado em si mesmo não conseguia transmitir sua verdade a outro ser humano espontâneamente. Valeu pela história Rodrigo!

Rodrigo Bentancurt disse...

Exploremos esse interior!
Pois é, é triste, mas alentador, paradoxalmente!

Anônimo disse...

O homem só precisa saber que pode e deve manifestar seus sentimentos com franqueza e ternura.Como podemos amar alguém que não conhecemos direito, que não manifesta seus sentimentos?
Quem não conhece a linguagem do amor deixa um sentimento preso no seu peito e um vazio em quem lhe quer amar.