sábado, 6 de fevereiro de 2010

Férias

As férias estão intensas e estão a ser as melhores dos últimos anos. Os livros são ótimos, a leitura é algo que apraz, a escrita algo que purga e o estudo algo que nos faz crescer. No entanto, é essencial experimentar a vida, conhecer pessoas e lugares, passar um bom tempo com os amigos e pensar na vida. Isso tudo se torna melhor quando o fazemos diante do mar.
Para quem gosta da praia, do sol, do sal e, porque não, das noites, a praia é algo incrível. Então, como estive por algum tempo nela e a ela retorno amanhã, peço desculpas pela falta de atualização do blog, mas viver é preciso.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Ressaltando

É importante ressaltar a existência de certas categorias literárias, embora, neste espaço, não haja a pretensão de literariedade. Há muito tempo, deixou-se de encarar, na narrativa, o enunciador como sendo o sujeito empírico do autor, ou, na poesia, o enunciador como sendo o poeta de carne e osso. Outro fato importante ressaltarmos é a forma com a qual se procede na escritura deste espaço.
Há categorias que norteiam os estudos literários desde, aproximadamente, a metade do século XX. Não se trata o enunciador, a “voz”, presente na obra como sendo a voz real do autor enquanto sujeito existente no mundo dos objetos, isto é, delinearam-se instâncias narrativas, pois literatura é ficção, é literatura mesmo, antes de tudo. Então, quando se trabalha uma obra não se menciona o nome do autor como sendo a pessoa que diz tal ou tal coisas no texto. Essa instância é conhecida pelo nome de narrador. É o narrador do texto que pontua, observa e carrega os leitores (também uma instância discursiva) ao longo da obra, assim como, de forma semelhante, na poesia, a categoria é de sujeito poético. Essas categorias se tornaram mais complexas e nos deparamos atualmente com o autor-implícito, na narrativa, e com o sujeito lírico, na poesia. Estas últimas instâncias são as responsáveis por atar o texto, por tecê-lo. O autor-implícito dá direito a fala aos personagens, ao narrador, decide quanto cada um vai falar, se a frase vai ser entrecortada ou centopéica, enfim, é o responsável pelas escolhas dentro da obra. Na poesia, essas escolhas são feitas pelo sujeito lírico. Portanto, não se deve confundir autor, poeta com o enunciador da obra, pois o autor pode pensar exatamente o contrário do que escreve.
Em relação à forma de ação do enunciador deste espaço já se disse em outras postagens que o sentimento, apenas, pode ser sentido no momento em que se sente. Não se pode sistematizar qualquer sentimento enquanto estamos tomados por ele. O sentimento, somente, vira discurso quando já não é sentido ou, ao menos, não é sentido de maneira assaz avassaladora. Assim, sempre quando nos reportamos a tal assunto referente aos sentimentos, eles já são passados ou não são mais sentidos em sua plenitude.
É interessante fazer esse esclarecimento porque este espaço não é espelho de uma vida para refletir momentos, embora, de alguma forma, eles possam ser captados, pois todos escrevem algo em um determinado momento e por algum motivo. As idéias aqui expostas concordam, pelo menos, no momento de sua escritura com as do autor deste espaço, embora possam mudar muito rapidamente. Isso não significa que seja o vivenciado pelo sujeito empírico no momento da escritura, principalmente, quando o tema são sentimentos.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Inadaptação

Quando não nos contentamos com algo, buscamos readaptar-nos. Quando não nos adaptamos com alguém, procuramos modificar-nos, modificar a outra pessoa ou, simplesmente, afastar-nos. Contudo, que devemos fazer quando não nos adaptamos com nós mesmos? Aí reside uma grande dificuldade: o problema de convivência que temos conosco.
Algo se modifica em nós às vezes, seja uma situação, seja um modo de perceber o mundo que nos rodeia ou a forma de perceber-nos. Com algo modificado, temos a sensação de que estamos inadaptados ao nosso corpo, ao nosso convívio, à nossa existência. Podemos não nos contentar conosco ou, pelo contrário, contentar-nos em demasia, que esses extremos nos fazem sentir, quer plenos, quer vazios, estranhos a nós. Isso nos obriga a repensarmos a nossa vida, os nossos comportamentos, enfim, em repensar-nos.
A “auto-inadaptação” é a mais complicada de todas as inadaptações porque a única salvação, após um longo tempo de angústia, é a nossa modificação como fruto de muita reflexão. Parece paradoxal pensarmos em inadaptação à nós, pois somos obrigados a conviver conosco as vinte e quatro horas do dia, daí temos de encontrar a solução o quanto antes possível.
Repensada a nossa existência, novamente adaptados à nós, seremos outros e com novas possibilidades de inadaptação. Sempre é assim. A vida é cíclica. Temos problemas, resolvemo-los, para depois termos outros problemas para serem resolvidos e nunca chegamos a uma síntese nessa pseudo-dialética. Somos alvo de nossas angústias, suportamos todos os elogios e mal tratos, todas as ansiedade e felicidades, sempre moldando-nos, parcialmente ao menos, às circunstâncias impostas pela existência.
Portanto, a dura convivência com momentos freqüentes de oscilações interiores é a vida. A vida é constante readaptar-se, repensar-se, reviver-se. Tudo está interligado. Todas as adaptações e inadaptações criam um circuito, no qual uma estabiliza ou desestabiliza a outra. Readapto-me, logo existo.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Ira

Sempre que falamos sobre algum sentimento, neste espaço, abordamo-lo de forma mais ou menos racional. Pensamos depois de havermos sentido porque, talvez, seja esta a característica essencial dos sentimentos em geral: serem, apenas, sentidos, embora depois possamos pensá-lo, sistematiza-lo, enfim, torna-lo algo menos abstrato.
O sentimento escolhido esta vez é a ira. Oh! Sentimento terrível, quiçá com grau de hierarquia superior aos outros, mas, como todos, aparece sem que lhe convidemos, abanca-se, controla-nos e depois se vai como se não tivesse vindo, deixando-nos quase igual a como éramos antes de seu aparecimento. Quase igual, pois não seremos os mesmo, ou seremos os mesmo, no entanto com um sentimento experimentado a mais.
Assim é a ira, junto com a gula* e com a avareza são os sentimentos eleitos como pecados. Afinal vaidade, luxúria, etc. são comportamentos movidos por um sentimento, mas não sentimentos em si. Curioso a ira ser um pecado, porque sem ela seríamos seres por demais reprimidos, talvez o pecado aí seja a falta de autocontrole. A ira é necessária, descarrega-nos do que de ruim há em nós. Todos a sentimos, a única diferença é a forma como a exteriorizamos.
Atualmente, o mundo vive em torno da indústria processual, assim a ira é reprimida e uma ofensa é julgada nos tribunais. É lindo! Somos os reis da civilização. Chegamos a um ponto que nos livramos de toda a selvageria contida em nós. Em compensação, convém lembrar que também somos fábrica de assassinos em série, de psicopatas, de sociopatas e mais uma enorme gama de sujeitos que reprimiram a sua ira ao longo da vida e, em algum momento, exteriorizá-la-ão.
Dessa forma, o que fazemos é travar lutas contínuas contra a ira ao invés de liberá-la, ao menos, parcialmente, porque é óbvio que não poderemos despejá-la sempre que a sintamos, e isso vale para qualquer sentimento. Nunca nos mostramos por completo quer no amor, quer na angústia, quer na ira. Embora deixá-la aparecer com parcimônia é extremamente benéfico.
Portanto, gritemos, xinguemos, batamos um pouco, pois o esconder a ira sempre que ela aparece é condenarmo-nos a sermos infelizes, a sermos reprimidos. Deixemos de apelar a terceiros para descontar nossa ira. Resolvamos as coisas com um pouco de selvageria, pois nossa essência é selvagem. Isto que somos? Seres civilizados, isto é, seres reprimidos.
* Retire-se a gula entre os sentimentos/pecados, pois, como sagazmente afirmou Ro, ela é um comportamento movido pela ansiedade, insegurança, etc.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Um ano

Há, exatamente, um ano iniciava este espaço com a apresentação do autor. O que fizemos, neste ano, foi uma continuação da apresentação. Na primeira postagem, havia a formalização da estréia (um ano passado e sigo sem desvencilhar-me desse acento), de quem era a pessoa que escrevia e seu intuito com este blog. Depois de mais de uma centena de postagens de qualidade inconstante, o que se fez foi uma grande apresentação, pois em cada uma delas está o que realmente somos (eu e os que comentam), o que pensamos sobre diversos assuntos, como nos posicionamos diante da vida e que expectativas temos de si.
Então, isto não passará de mais uma apresentação. E espero que este ano continue a ter apresentações agradáveis, tanto da parte concernente a quem escreve como a que lê.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Faroeste Gaúcho

Volto a postar depois de algum tempo e, infelizmente, um assunto triste que não se pode calar. Claro que o assunto é triste para mim e para todas as pessoas que nasceram, viveram ou sentem um carinho especial por Santana do Livramento, eu, particularmente, encaixo-me nas três categorias. O descaso, a má-educação e a falta de perspectivas são os tripés desta cidade.
A cidade está suja como nunca. Não, apenas, pela quantidade de lixo jogado nas ruas pelos habitantes e os turistas que vêm visitar a vizinha Rivera no Uruguai, mas também pela greve dos lixeiros cujos altíssimos salários estão atrasados há algum tempo. Certo eles, ganhando uma miséria para fazer um trabalho, literalmente, sujo, mas indispensável, não só em relação à estética, como também à saúde. Esse crime contra a população retorna em violência urbana, se é que esta cidade ainda mantém qualquer traço de uma urbe. Casas, pessoas, comércios sendo assaltados. Assassinatos por discussões banais. Tudo tão complicado.
A cidade atrasada no tempo e a mentalidade das pessoas também. Há um concurso de falta de respeito em todas as esferas, mas a mais perceptível é no trânsito, no qual pedestres e motoristas disputam páreo a páreo quem leva o prêmio de cidadão má-educação! As pessoas julgando qualquer comportamento que não faça jus ao modo de vida que se deve levar aqui: vive muito de aparências. Não tenta parecer o que tu és, mas aparenta o que os outros querem que tu sejas, nem que para isso seja necessário o total abandono da tua personalidade.
Mas isso tudo é explicado. A falta de horizontes dos que vivem aqui é de dar pena. Não há empresas, o comércio é deplorável. E tudo contrastando com Rivera que, pela queda do dólar, progride. Bem, Livramento foi uma das únicas cidades do estado do Rio Grande do Sul, na qual a população diminuiu. Se alguém quer algo, deve sair daqui.
Triste, melancólico, imperdoável, ver a cidade onde nascemos, crescemos, conhecemos pessoas, fizemos amizades que duram até hoje, nesse estado lamentável. Tomara, tomara, tomara que algo de bom aconteça neste lugar esquecido pelas autoridades, esquecido pelas pessoas que não respeitam a sua própria casa, e para os que acreditam nele, esquecida por Deus.

sábado, 12 de dezembro de 2009

E agora, José?

E agora, José?
O fim de semestre chegou,
A atividade aumentou,
O tempo sumiu,
O blog parou,
E agora, José?

PS: Temporariamente.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Mais uma vez!

Oba! Mais um escândalo político no país. O congresso e as assembléias legislativas são a Disney da corrupção. É incrível, ou melhor, é, completamente, crível esse tipo de fato em nossas terras. Políticos fazem o que querem como querem, então todos dizem que isso é problema da impunidade. No entanto, e a impunidade das urnas cujos juízes somos nós? Essa também fracassou há tempos.
Quem fizer um trabalho de garimpo, na internet, poderá observar os discursos dos tucanos e dos democratas na época do mensalão. E, agora, a menos de um ano das eleições vêem-se imagens, que, por sinal, não dizem nada, de dinheiro em meias. É interessante ver como os acessórios estão bonitos, nessa moda corrupção Brasil, enfeitados com peixes e onças das notas de cem e cinqüenta. O discurso dos Democratas é rígido, firme, categórico. Claro que o fazem pelo curto prazo para as eleições. Expulsam algumas cabeças que já estão na forca e saem com a imagem irretocável de partido sério que pune os corruptos, pois ninguém se lembrará de que esse era o partido de ACM. Não se sabe onde é direita ou onde é esquerda. Não se tem um porto seguro para atracar. Então o cidadão desilude-se e não dá importância ao cenário político.
Entretanto, o pré-requisito para desiludir-se e cansar-se com a política é haver-se iludido, alguma vez, e ter-se desgastado, e esta geração não moveu sequer uma palha para sentir-se cansada. Bem, nossa geração já nasceu cansada. Na era do tudo pronto, observar, pensar e chegar a alguma conclusão cansa em demasia. Daí, chega-se ao mais banal do senso comum: “político é tudo igual”, “só tem ladrão”. E baseado nessas proposições, chega-se a lógica, extremamente arguta, do: “vou deixar alguém que não eu fiscalize, vote, decida. Não vou reclamar muito, em voz alta. Só vou reclamar pros amigos e xingar que isso eu sei fazer.” Que perspicácia! Sou capaz de apostar que mais de 70% dos eleitores não se lembram de seu voto integralmente, de presidente a deputado estadual, e 90% não faz a mínima idéia do que fizeram seus deputados e senadores nos últimos anos. E agora vemos o retorno, aliás para algo retornar deve haver partido alguma vez. Logo, vemos a massificação (esse é o termo) dos acontecimentos referentes a mais um mensalão, mas desta vez os papéis inverteram-se: os acusados passaram a acusadores e vice-versa.
E assim seguiremos pelo resto dos tempos, pois, há a democracia eleitoral, e nós somos os juízes que não culpamos ninguém. A impunidade no nível judiciário e no popular leva a isto: um país inteiro às cegas, de olhos vendados empurrando a culpa para o cego ao lado. Somos concretização do Mito da Caverna. Enfim, no Brasil, não votamos, torcemos, como no futebol, por um candidato ou por outro e reclamamos do árbitro, sem nos darmos conta que, em última instância, os árbitros somos nós. E alguém duvida como esse filme vai acabar? Em: pizza, bambino, pizza!

PS: no Uruguai, há dois domingos, elegeu-se presidente José Mujica. Esperamos que continue com a importante, necessária e coerente mudança do país. Temos plena confiança nele.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Poços secos

Somos poços com água que verte incansavelmente e é extraída para ser bebida por outros. Somos seres cognitivos com idéias expressas através do discurso. Embora a água verta sem descanso, cabe uma pergunta: pode o poço secar?
Em um primeiro olhar, a resposta óbvia é não. Ninguém, salvo uma catástrofe neurológica, parará de pensar, pois estamos sempre pensando mesmo que não o percebamos. O que devemos saber é como se esgotam as ilusórias idéias de estarmos dizendo algo nosso. Ilusórias porque somos um mosaico de referências cuja extensão vai desde a percepção do mundo até como articulamos o que conhecemos, porque, inclusive, quando negamos algo, temos um ponto de contato com algo de outrem (um outrem que pode ser nós mesmos). Esgotadas porque não conseguimos articulá-las e justificá-las como nossas. Não conseguimos dizer nada a respeito de algo.
Muitas vezes, há tanta água que não necessitamos jogar o balde no poço, ela encharca a terra e começa a ser jorrada ao mundo que nos cerca. Contudo, há tempos de escassez. O balde toca no fundo do poço, sente a terra como árida e volta vazio. A água escondeu-se, fugiu-nos. Sabemos que ela existe, porém não a encontramos. Desconhecemos o motivo pelo qual não obtemos a concatenação do que temos em nosso intelecto. Nada nos desperta o interesse para que articulemos idéias e exponhamo-las, pois o pouco senso crítico de que desfrutamos está abalado. Sim, porque termos a ilusão de sermos os donos de uma idéia, de termos opinião própria que pode ser compartilhada por outros, não é mais do que tomarmos um objeto, entenda-se este como um fato, uma lembrança ou algo material, e refletirmos, confrontarmo-lo com o que já está internalizado, para descrevê-lo, concordar ou discordar com ele. Assim, provavelmente, não temos uma crise de criatividade, senão de senso crítico.
Enfim, esses fatos ocorrem, muitas vezes, em nossa vida, mas problema é que eles nos assustam. A angústia de sentir-se seco por dentro, desertos esperando por água, poços aguardando infiltração, aterroriza-nos e faz-nos pensar que não seremos molhados outra vez.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Saudade

Convivemos com as pessoas, temo-las ao nosso lado durante anos a fio. Depois, vem o distanciamento que é natural, pois as vidas sempre seguem rumos distintos. A falta da convivência que, outrora, era a base do que nos rodeava, faz com que a saudade invade-nos. A presença da ausência é angustiante. O desejo não realizado de estarmos com quem desejamos, faz o coração ficar apertado e as lágrimas rolarem com a simples lembrança. Não falemos, somente, da morte de pessoas queridas, mas da distância física que o vasto mundo nos impõe. Sejam homens ou mulheres, a saudade é o sentimento mais poderoso e mais eficaz em relação à desestruturação emocional de cada um. Aquela frase, muito usada em séculos passados que homem não chora, tinha uma exceção, as lágrimas advindas pela saudade. Esta projetada ou rememorada faz, como todo o sentimento, que a sintamos sem, necessariamente, sentirmo-la. O que é, senão saudade projetada, o sentimento que nos faz cair em prantos quando pensamos na futura morte de alguém que amamos? Esse denso desespero é fruto da consciência que poderemos seguir a existir privados da pessoa a quem queremos. Quando nos lembramos de que já sentimos saudade, ela retorna como saudade. Embora esse fato aconteça com todos os sentimentos, a saudade dói, pois ela desencadeia uma série de outros sentimentos negativos.
A saudade deixa-nos impacientes, angustiados e aflitos. Corrói-nos o coração essa ausência. Não conseguimos respirar quando somos sufocados por essa fenda incipiente ou antiga. Pensamos, simplesmente, na ausência do ser amado, da vida que tínhamos ou do lugar onde vivemos. Limpamos as imperfeições, polimos e deixamos perfeito o saudoso, aumentando, destarte, a saudade. Claro, que saudade é uma bela palavra, cheia de significados, mas o sentimento saudade é terrível. A saudade é uma ponte que se faz de nosso coração até o sujeito amado. Uma ponte não tão pequena para ser cruzada imediatamente, nem tão longa que impeça a visão daquilo que sentimos saudade. E, à diferença de outros sentimentos, a saudade é duradoura, e a angústia que ela nos causa também o é.
Porém, ouvimos asserções que a saudade, somente, é boa quando estamos prestes a matá-la. Discordo! A saudade nunca é boa. O bom é a projeção de que, em breve, não a sentiremos mais. Logo o positivo não reside sobre a saudade, mas sim, sobre a expectativa de sua dissipação.
Portanto, somos reféns da saudade, salvo em casos que ela pode ser, rapidamente, exterminada. Contudo, na maioria das vezes, ela se instaura em nós, porque sabemos da dificuldade e dos empecilhos que nos impossibilitam tal concretização. A saudade de pessoas que estão longe, podemos matá-la desvencilhando-nos dos obstáculos, isso serve também para os lugares, os objetos, mas há duas saudades de pior trajeto: a do que fomos outrora; e a única, realmente, impossível de ser quebrada: a dos que já se foram, pois a ponte rompeu-se no meio do caminho e vemos, apenas, a pessoa saudosa sem que possamos abraçá-la. Mas o pior de tudo é que, com o passar do tempo, uma bruma vai formando-se, tornando a pessoa, mera, lembrança da lembrança, sem que saudade diminua.