terça-feira, 21 de setembro de 2010

Primavera

Hoje é a entrada da primavera. No Brasil, não damos muita importância a essa data, ao passo que, em países como a Argentina, 21 de setembro é dia de folga para os estudantes, que se reúnem nas praças, fazendo piqueniques. Neste 21, nesta cidade sulina, Santa Maria, a primavera foi recebida com clima outonal, chuva, vento e temperatura abaixo da que já nos acostumáramos. Não, não, não, esta não é uma postagem meteorológica.
Quero, na verdade, retornar à pauta que vem sendo tratada nas últimas postagens do blog, as convenções. O nosso tempo moderno é linear, desloca-se para frente sem que haja repetições ou retornos, já para os gregos o tempo era cíclico. Havia um eterno retorno ao nascimento, simbolizado pela primavera. Assim, o nascimento era a primavera, passando pelo auge no verão, agonizando no outono, morrendo no inverno para renascer na primavera.
Essa noção implica uma perspectiva diferente da que temos. Somos levados a entender a existência, a história e tudo que esta última leva consigo, como uma construção progressiva que nos carrega para o fim. Vemos, no futuro, o fim, o ponto final e não a possibilidade de uma renovação, de que todo o fim é um recomeço embora esse recomeço seja sem nós.
Toda essa fala em catadupas é apenas para dizer que a percepção do tempo muda e com ela a nossa percepção de nós mesmos e da existência. Seja bem-vinda, primavera. Mais um recomeço em nossas vidas.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Convenção

Já conversamos, neste espaço, sobre a pseudo-naturalidade de tudo que nos rodeia, mas, por ser um tema tão rico e tão explorável, retornemos a ele.
Sabemos que atitudes, comportamentos, tendências, posturas são exigências de uma vida em sociedade, contudo assim são em uma determinada sociedade, em um determinado tempo. No século XIX, por exemplo, qualquer ação que escamoteasse a mulher da vida social era natural, hoje, atitudes como essa são consideradas machistas e relegadas a um segundo plano como fonte de barbarismo. A questão é fundamental, no entanto pode levar a um desespero diante da impotência de modificação do status quo. Provocar, argüir, pressionar a realidade através da razão e fazer o mesmo também com esta demanda reflexão, paciência e arrojo, pois a realidade que nos constrói é, por nós, construída. Enfim, não quero resumir a grande aula de Literatura Fantástica, logo passemos a outro tópico.
E, nas relações interpessoais, como se projetam essas convenções? Não pretendo responder a essa questão, senão lançar dados para que construamos essa idéia juntos. Como historicamente acontecem as relações entre pais e filhos, professor e alunos, irmãos, casais, amigos? Não precisamos ser intelectualmente muito agudos para percebermos que elas se modificam ao longo do tempo. Se outrora os pais exerciam uma posição hierárquica cuja contestação de posições, de atitudes, permissões ou proibições era impossível, atualmente, percebemos um diálogo e, infelizmente, em muitos casos, uma atitude de sobreposição dos filhos. Portanto, as relações, a partir desse exemplo, e a forma como elas se dão são convenções sociais por nós construídas que, entretanto, experimentamos, empiricamente, e nos fazem os seres que somos como frutos de uma trajetória de vida.
Então, como podemos pensar nossas angústias, sofrimentos, expectativas e alegrias? Afinal, são sentimentos tão individuais que temos dificuldade de explicá-los em outras línguas quando alguém nos pergunta o que significam. Contudo, são construções sociais também que nos guiam como sentir e o que sentir em cada situação. Conclusão: esta massa é mais homogênea do que parece, mas paradoxalmente, é mais, muito mais heterogênea do que imaginamos, apenas não temos liberdade e, muito provavelmente, nunca a teremos, porque se as convenções nos retiram o particular e nos colocam no centro do geral, alguém as convencionou.

domingo, 29 de agosto de 2010

Distância relativa

Na última postagem, há 2000 anos atrás, falou-se do abraço, a aproximação de dois corpos que pode verter afeto. Tratemos agora de algo oposto, a distância. Como se calcula a distância de afeto? Isto é, podemos estar longe estando próximos; podemos estar colados a quilômetros de lonjura. Tudo depende, na vida tudo depende, de como encararemos os fatos.
Podemos morar na mesma cidade, passarmos o dia em companhia dos amigos, pais, pessoa amada, ou seja, de quem concedemos afeto, mas estarmos anos luz de distância, pois não há afinidade. Não conseguimos fazer a trama necessária para que o afeto seja um entrelaçado de emoções mútuas. O contrário também é verdadeiro. Temos um oceano que nos separa, contudo nos sentimos tão próximos que somos capazes de reduzir a distância a um nada.
Em poucas palavras, hoje estou sintético, se tudo é relativo, é impossível falar em absoluto de algo como distância, porque nós a construímos com nossos assombros e desconfianças, com nossas angústias e fantasmas; no entanto também podemos desfazê-la, mandando tudo isso embora e sentido-nos próximos de coração.

domingo, 8 de agosto de 2010

Abraço

O abraço é tão importante que Eduardo Galeano escreveu um livro a seu respeito, El libro de los abrazos. O abraço conforta e é confortador; o abraço envolve, entrelaça duas pessoas, fazendo que o coração de uma toque no peito da outra; o abraço apertado, que estala as vértebra, transmite calor, carinho, confiança, paz e lágrimas. Um ombro amigo apenas se torna paraíso de ânimo quando se abraça, e se deixam os sentimentos fluírem como rios incertos na sua correnteza.
O abraço pode ser coletivo em comemoração a algo, mas quando ocorre o que fala é uma emoção por outro motivo que não pelo abraço; o abraço precisa de intimidade; um abraço de pai, um abraço de mãe, transmitem, nesse silêncio loquaz, os melhores conselhos possíveis; o abraço da pessoa amada diz eu te amo; o abraço elimina a carência mais que um beijo; o abraço faz as pazes, sela a amizade; mata a saudade, despede e espera o retorno; o abraço falso nem abraço é, pois se afasta logo e não permite se concretizar; o abraço é puro, é ingênuo, é infantil, é verdadeiro, é a queda das máscaras, é o sentimento desarmado de um casca que o esconde muitas vezes; não saberia viver sem um abraço.
O abraço é tão importante que, neste post, o texto abraça a imagem!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Rotina e Cotidiano

Segundo o Dicionário Aurélio, rotina: seqüência de atos ou procedimentos que se observa pela força do hábito; rotineira. Cotidiano: aquilo que se faz ou ocorre todos os dias. Os dois significados são bastante próximos, assim como a sua diferença, que é quase imperceptível, no entanto, o cotidiano é extremamente aprazível, enquanto a rotina é cansativa e digna de rejeição.
Estabelecer ações que se repetem e dão ritmo à vida, deixar que a vida imponha suas necessidades, apresentando-nos tarefas a serem realizadas habitualmente, é importante, é, digamos até, necessário para quem pretende algo de interessante em sua vida. É do cotidiano dormir, acordar, comer, estudar, trabalhar, divertir-se, conhecer pessoas, afastar-se de pessoas, criar expectativas, perder as esperanças, apaixonar-se, desiludir-se, mudar. Sim, mudar faz parte do cotidiano; cada dia a cada minuto que passa somos outro, com um minuto a mais de vida, com algo diferente, com um aprendizado, com uma sensação, com uma passagem do tempo ao menos. Já a rotina machuca, pois é a impossibilidade de um acontecimento novo. É algo que pesa, porque se faz sentir desagradável. Algo que antes era prazeroso, uma novidade que, ao passar do tempo, torna-se hábito pode ser cotidiana quando temos a possibilidade de fugirmos dela, agora quando se enraíza e não nos deixa escapatória faz-se rotina. A rotina é a própria desilusão com a seqüência repetida dos fatos; pode ser encarada como o cotidiano sem fuga, sem flexibilidade, rígido e inexorável. Ou seja, a rotina é o que pela sua repetição dilacera. É uma ferida aberta e remoída, impedindo sua cicatrização, diária. Do mais banal ao mais necessário, a rotina é aquela sensação de não querer mais aquilo, contudo ser impelido ao indesejado. As ações cotidianas regram a vida, colocam horários, métodos e et ceteras; a rotina é quando essas regras querem ser quebradas, porém não se pode burlá-las.
Para quem chegou até aqui no texto e não concordou tudo bem, pois para mim isso é cotidiano. Se discordou de cada um dos conceitos, sem problemas, pois isto é uma negociação de sentidos e podem ser invertidos para quem crê que cotidiano é o descrito como rotina e vice-versa. Agora, fica um pedido, tornem a leitura algo do cotidiano, sem virar rotina.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Negociação de sentidos

Ninguém é dono dos sentidos que produz. Então, sabemos que uma frase, um texto, uma obra de arte é uma constante negociação entre locutores e interlocutores. As palavras vêm permeadas de significações subjetivas que impossibilitam sua expressão total, logo elas nunca alcançam a completude.
Dessa forma, a comunicação sempre depende de algo mais, de uma negociação de sentidos, de uma projeção de imagens. Então, chegamos a um ponto interessante para desmitificar uma prática recorrente entre “críticos” de literatura, “professores” de literatura e o senso comum, influenciado pelos dois primeiros. Essa prática diz respeito à clássica pergunta “o que o autor quis dizer?”. Bem, para responder a essa questão, necessitaríamos de uma conversa com o autor, precisaríamos que ele estivesse vivo e se lembrasse, exatamente, do que quis dizer.
Portanto, passemos a outras formulações, tais quais os sentidos que estão postos na obra e podem ser encontrados e justificados. Quem faz isso são os críticos de literatura e os professores de literatura, contudo, infelizmente, esses profissionais estão em menor número do que os “críticos” e os “professores”. Retomando: os sentidos produzidos por um autor em determinada obra vêm permeados de outras significações que, muitas vezes, passam despercebidas pelo artista e dão margem para que o interlocutor perceba-as, aproprie-se delas e crie a sua própria leitura. Essa leitura se bem justificada passa a ser mais uma leitura tão perspicaz quanto a do autor.
Assim, uma obra que permite muitas possibilidades de leituras acaba por tornar-se um clássico, sem que uma interpretação de sentidos exclua a outra. Nessa senda, as aberturas de interpretação permitem que se busquem os sentidos mais recônditos sem esgotá-los, lembrando-se sempre que isso tudo, para ter valor, precisa ser extremamente bem justificado, abrindo possibilidades para várias abordagens da obra de arte. Portanto, a negociação de sentidos não termina nunca mesmo que não exista mais o outro negociante.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Orvalho

Os raios de sol derretem a geada, transformando-a em orvalho novamente. A vida toda ao reverso. Os fachos de luz atravessam pelo meio das folhas das árvores e aquecem apensa onde tocam. O frio permanece ao redor. Abro a janela, vejo concreto e frio. Sim, é possível ver o frio. Ele está a nossa frente, na paisagem. A fumaça do solo do orvalho, que evapora, é nuvem. São imensas nuvens brancas na terra. O frio mata, mas também embeleza.
Permito-me um atraso nas minhas obrigações para observar o frio. Os pássaros encolhidos, as pessoas a levantarem-se de suas camas, os que as têm, também encolhidas. Alargo-me, a paisagem do frio inunda nossa noção de estética e me faz sentir bem, com frio, mas bem. O sol sobe um pouco mais, a fumaça aumente, o tempo passa. Agora a árvore tapa um pouco mais o sol, a fumaça estanca, o tempo pára. Poderia haver parado naquele instante, não deveria mais correr o ponteiro do relógio, para o mundo tornar-se fachos de luz entre as árvores, orvalho, fumaça e frio.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Paradigmas internos

Seja o yin-yang na tradição oriental, seja a dualidade percebida por Deus depois do Dilúvio, o bem e o mal existem em nós, ou melhor, o bom e ruim. Então, está dentro, bondade, maldade, ciúme, confiança, raiva, tolerância, flexibilidade, rigidez. Contudo, geralmente, predominam alguns elementos desses pares, fazendo com que os outros se apaguem ou, ao menos, sejam obliterados. Portanto, somos tudo e nada concomitantemente, somos o que deixamos vir à tona e somos o que escondemos, mas existe.
Conhecem-nos ou, reconhecem-nos como sendo aquilo que mostramos, que evidenciamos. Nós nos conhecemos como aquilo que queremos mostrar. Esses dois pontos de vista não são idênticos, havendo, assim, um problema de identidade do sujeito. No afã de mostrar que somos bons, ou agradáveis, ou a projeção que o outro faz de nós, esquecemo-nos de ser quem somos, de conviver com os elementos das dicotomias que mais nos aprazem, tornando-nos diferentes de nós mesmos.
Neste ponto, crescem os problemas porque ao deixarmos de mostrar-nos como antes nos mostrávamos, criamos um novo paradigma de escolha dos elementos das dicotomias e convivemos com uma nova postura, convivendo, destarte, com um ser novo para nós. Isso também causa o desconforto de quem convive conosco e conhecia um sujeito distinto deste que se apresenta. O desconforto dos outros em relação a nós, e nosso próprio desconforto faz-nos perceber o quão desagradável é conviver com o que não queremos, tornando-nos insuportáveis a nós mesmos.
Pode-se imaginar, neste momento, que este texto é conservador, contrário às mudanças, contudo, creio que é exatamente o contrário. Sim, aceitar as mudanças dos outros. Aceitar que temos certo tipo de atitudes que poderiam ser diferentes e mudá-las, sim. Porém, a mudança sempre deve vir para que a possamos experimentar em direção à satisfação, isto é, a mudança é boa quando nos faz sentir melhor. Então, essa troca deve ir ao encontro dos elementos das dicotomias e não estabelecer um novo paradigma interno, pois somente os paradigmas externos devem ser rompidos. Se os internos se rompem, perdemos aquilo que comumente chamamos essência!

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Muito natural, não?

Certas coisas são naturais do ser humano, como por exemplo, quando temos necessidades fisiológicas, vamos ao banheiro e pronto, isso é natural. Será? Ponderemos. Se estamos em outro país de cultura ocidental, já encontramos diferenças que desnaturalizam certos conceitos. Para seguir pensando sobre isso deveríamos definir cultura. Esse passo é mais complexo, mas tentemos. Escolhemos o conceito de Williams, o qual trata a cultura como, grosso modo, um sistema significante através do qual uma ordem social pode comunicar-se e investigar-se.
Sigamos pensando em conceitos ações consideradas naturais. Quando mencionamos visitar um país de cultura ocidental, ignoramos que, dentro de um país, subsistem diversas culturas. Tomemos o Brasil como referência. Em nosso país, existem comunidades indígenas autóctones, logo não são menos brasileiros do que nós, mas vivem sob outros paradigmas culturais que não ocidentais. Assim, se em uma tribo (isto é extremamente hipotético) o ato de defecar é coletivo, os membros dessa comunidade não se estranhariam de um sujeito defecando à vontade na frente de todos. Isso pode chocar, no entanto aponta para que até os atos julgados mais naturais não o são. São, na verdade, construções culturais arraigadas a nós graças a uma forte tradição e perpetuação de uma hegemonia que não se deixa bater.
Mudemos o enfoque. Instaurados em uma cultura não ocidental, do outro lado do mundo, tudo nos parece bárbaro, sem percebermos que estamos, ainda, com uma ideologia próxima a dos romanos, que rejeitavam tudo o não originado, adaptado, integrado ao Lácio como bárbaro, pior, terrível. Vemos com assombro a entrega religiosa e fanática de muçulmanos, horrorizamo-nos com a sociedade estamental indiana toda baseada nas castas. No entanto, apagamos da memória o que foi o Feudalismo, as Cruzadas; ignoramos o fanatismo em Cristo que leva ao auto-flagelo, ao desprezo dos diferentes ou dos que nos desprezam, pois o que vale, o que é natural e, portanto, correto é a nossa perspectiva, é a nossa cultura.
Isso não é mero desprezo da alteridade, porque vai muito mais além. Ao entender como natural a língua, as roupas, as atitudes mais triviais, rechaçamos que tudo, ou 99,9% de tudo, é construção social. Obviamente, é fácil esquecer-se disso, afinal nascemos e já temos uma cultura (im) posta, à qual devemos adequar-nos. Entretanto, ao pensarmos sobre essas questões e tentarmos desnaturalizar conceitos - isto não que dizer que não deve haver atitudes automáticas, pois, sim, devemos adequar-nos ao meio, embora devamos e possamos criticá-lo – veremos como é possível respeitar o outro, como também contestar e posicionar-nos frente à dura realidade vivida.
E, para deixar mais um objeto de reflexão, pensemos no mundo natural. Há pouca coisa natural ali, pois tudo que se planta é um cultivo, logo uma cultura... Sobra quase nada!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Adeus, Saramago. Até logo, Saramago

Não gostaria que este espaço se tornasse algo parecido com as famílias grandes e sem contato cujos encontros acontecem à beira de um caixão em uma sala de velórios, contudo não se pode eximir a necessidade que, mesmo sem tempo graças à síndrome de fim de semestre, algumas palavras fossem escritas para o grande Saramago.
A consternação dos amantes da literatura, escritores e comunistas é enorme. José Saramago representava os três em um só. O nosso único Nobel em língua portuguesa se foi hoje, tolhendo-nos a expectativa por seus próximos, bem construídos, argutos, irônicos, bem humorados, sem deixar de denunciar, simbolizar e retratar as mazelas humanas, livros.
Principalmente, as narrativas de José Saramago mesclam algo que é raríssimo hoje em dia: boa literatura e boa leitura. Conseguiu o escritor português criar uma literatura de excelente qualidade, com tramas narrativas extremamente bem amarradas, cujo prazer da leitura estava presente. Seus temas fantásticos ou com inversões do que a história nos conta deliciaram a todos os que o leram.
Resta dar adeus ao escritor eterno em seus livros, mas materialmente morto e acabado, pois, ateu como era, ateu como sou, acreditamos que, morta a matéria, não resta nada. No entanto, facilmente encontrável em seus livros abertos a todas as penetrações possíveis. Reencontrá-lo-emos em suas páginas. Então, fiquemos com algumas palavras suas de “A Jangada de Pedra”:
“Da noite para o dia a Europa apareceu coberta de inscrições. Aquilo que ao princípio talvez não tivesse passado de um mero e impotente desabafo de sonhador, foi alastrando-se até tornar-se grito, protesto, manifestação de rua.”