sexta-feira, 18 de junho de 2010

Adeus, Saramago. Até logo, Saramago

Não gostaria que este espaço se tornasse algo parecido com as famílias grandes e sem contato cujos encontros acontecem à beira de um caixão em uma sala de velórios, contudo não se pode eximir a necessidade que, mesmo sem tempo graças à síndrome de fim de semestre, algumas palavras fossem escritas para o grande Saramago.
A consternação dos amantes da literatura, escritores e comunistas é enorme. José Saramago representava os três em um só. O nosso único Nobel em língua portuguesa se foi hoje, tolhendo-nos a expectativa por seus próximos, bem construídos, argutos, irônicos, bem humorados, sem deixar de denunciar, simbolizar e retratar as mazelas humanas, livros.
Principalmente, as narrativas de José Saramago mesclam algo que é raríssimo hoje em dia: boa literatura e boa leitura. Conseguiu o escritor português criar uma literatura de excelente qualidade, com tramas narrativas extremamente bem amarradas, cujo prazer da leitura estava presente. Seus temas fantásticos ou com inversões do que a história nos conta deliciaram a todos os que o leram.
Resta dar adeus ao escritor eterno em seus livros, mas materialmente morto e acabado, pois, ateu como era, ateu como sou, acreditamos que, morta a matéria, não resta nada. No entanto, facilmente encontrável em seus livros abertos a todas as penetrações possíveis. Reencontrá-lo-emos em suas páginas. Então, fiquemos com algumas palavras suas de “A Jangada de Pedra”:
“Da noite para o dia a Europa apareceu coberta de inscrições. Aquilo que ao princípio talvez não tivesse passado de um mero e impotente desabafo de sonhador, foi alastrando-se até tornar-se grito, protesto, manifestação de rua.”

domingo, 23 de maio de 2010

Abismo

Jogar-se no abismo sem medo de que o machucado seja o passo posterior à vida é, sem dúvida, viver. Enfrentar os nossos medos e as nossas angústias, sabendo os riscos que corremos, faz com que vivamos. Diz-se, muito freqüentemente, neste espaço, que a vida é feita de escolhas e somos os seus resultados, então escolher entre não correr risco e também não viver tudo o que esses riscos podem nos proporcionar e corrê-los sem sermos, também, temerários, fico com o segundo.
O tão citado neste blog, Fernando Pessoa, já disse “navegar é preciso, viver não é preciso”. A vida não é matemática, não tem tudo em seu lugar para se chegar a um resultado exato, senão história, filosofia, literatura. É imprevisível e cheia de nuanças, mistérios, dores e alegrias. Agora não podemos pensar que a vida é fácil. Toda dor é um prelúdio da alegria e vice-versa, pois felicidade e tristeza são momentos, e a distância entre uma e outra dá o tom de cada uma delas.
Arriscar-se a sofrer, no futuro, é gozar o presente, é saber que os medos e angústias estão em estado latente, mas aí devem ficar. Ser precavido em demasia é empecilho à vida, ao prazer, à felicidade. Obviamente, que arriscar-se sem limites vai gerar sofrimento também, porque perdemos as rédeas da situação. Talvez, o ideal não seja o meio-termo, mas um pequeno pendor na balança para o lado da temeridade. Assim sofrer por ter-se arriscado é sofrer por tentar viver, e não por deixar a vida passar pela nossa frente. Então, pulemos do abismo!

terça-feira, 11 de maio de 2010

Gotas

Não entendo as gotas. Obviamente, há tipos distintos delas: umas pingam, outras caem. As que pingam são de menor grandeza e sedução, pois fazem seu caminho pelos canos. As que caem são lindas, únicas, individuais, mas, ao tocar o solo, unem-se, formando um todo indivisível cuja função é rolar, descer, unir-se ainda mais.
As gotas escorrem, limpam as ruas da sujeira superficial, arrastando-a consigo, depositam-na em locais inapropriados e fazem crescer a superfície de água. Outras gotas ficam penduradas nas árvores, nas janelas, nas marquises e vão se soltando devagar, alongando-se, ficando presas por tênues espelhos líquidos quase imperceptíveis.
A melhor sensação é das gotas que vêm com tremenda força e, no momento do choque com o asfalto, geram mais uma quantidade considerável de gotas, cujo sentido é contrário das que descem, e logo após acabam tocando o solo novamente e aliando-se a todo aquele conjunto de gotas sem identidade específica, observadas como, simplesmente, água.
A chuva nada mais é do que um fenômeno climático, mas as gotas têm vida própria. São individuais até o momento de serem cooptadas pela imensidão delas, tornando-se um líquido uno, assim como a multidão das pessoas nas cidades: sem identidade, sem vontade, sem porquê, apenas, sendo!

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Crise

Não sei como funciona este ciclo: se nossa apatia e falta de conhecimento gera este lixo cultural ou se, ao nos empurrarem esse lixo cultural, fazem-nos seres apáticos e sem conhecimento. Refiro-me, especificamente, não à crise das humanidades, mas à inércia cultural dos alunos de cursos das humanas no Brasil.
Entramos no curso, buscamos nosso diploma e não fazemos nada, nem, ao menos, olhamos para o lado a fim de saber o que acontece ao nosso redor. Saímos muito pior do que entramos, pois somos formados em algo para que não temos proficiência. A partir disso, cria-se um ciclo mais terrível ainda. Não temos proficiência, mas somos formadores de opinião. Formaremos pessoas menos capacitadas que sairão menos proficientes que nós e formarão pessoas menos capacitadas ainda e assim ad infinitum.
Há o problema de, muitos anos atrás, haver-se popularizado o ensino médio sem o investimento necessário na base. Esses alunos (nós) mal formados entraram na faculdade, pois esta se está popularizando, como aconteceu com o médio no passado, sem a menor condição de encará-la. Fato que, muito em breve, estender-se-á aos programas de pós-graduação, ou seja, estamos perdidos.
Obviamente, que o parágrafo anterior não aborda nenhum estudo sociológico e também não pretende dar conta da totalidade do fracasso dos alunos dos cursos das humanas, pois nem se falou na pós-modernidade, no estado atual de nossa sociedade que não permite a “perda de tempo” com reflexões nem com o conhecimento da tradição. Porém, devemos nos lembrar que a exigência de um diploma e a relativa facilidade de ingresso nas carreiras das humanas fazem-nas alvo fácil de caçadores de canudos cuja aptidão está a quilômetros desses cursos.
Se não nos acordarmos, seguiremos descendo o poço, e o que a arte, a filosofia e a história mostraram de nossa época será a representação de homens máquina, ou melhor, de homens virtuais. Seres movidos a comandos e cliques de mouses sem, sequer, pensarem o porquê de fazerem o que fazem.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Escolhas!

Em certos momentos, decisões são mais complicadas que nunca. As escolhas, ou seja, a vida, são muito simples quando relativas a problemas sem maior amplitude. Contudo, sempre que a dificuldade é enorme, a escolha é impraticável (obviamente, que impraticável é um grande exagero, mas é quase), pois sabemos que cada escolha é uma renúncia, logo sempre estaremos perdendo algo sem saber o que é.
Assim, perdemos algo sempre que ganhamos algo. O ganhado vivemo-lo, o perdido desconhecemo-lo. Porém, a vida funciona dessa forma o tempo todo, porque apenas apreendemos o vivido, o experimentado, o que é desconhecido não nos faz falta. Quando criança, viajando para capital do estado, lembro-me de passar uma cidade muito pequena, na qual outras crianças brincavam. Pus-me a pensar o quão infelizes eram as crianças por viverem naquela cidade tão pequena e triste. Ledo engano. Anos depois, dei-me conta de que para aquelas crianças, aquele era seu universo, sem haver outras possibilidades.
Enfim, essas são escolhas mais abstratas, que perpassam um viés filosófico-existencial. No entanto, há escolhas relacionadas ao mundo prático cuja preocupação deveria afligir-nos tanto quanto qualquer outra emocional ou intelectual. Este ano, no Brasil, é ano de eleições, portanto, tomaremos uma decisão, faremos uma escolha, para os próximos quatro anos. À diferença das escolhas abstratas, nas quais se unem razão e emoção, nesta o que deve pesar é, sobretudo, a razão. Devemos votar sem paixões, que não sejam o desejo de honestidade e respeito. Isto é, basear nossas escolhas em fatos, e não ficar a pensar que não gosto deste porque sim, ou prefiro o outro porque é mais charmoso e galante. Votemos pensando, comparando, conhecendo passado para projetar o futuro. Ou seja, levemos mais a sério essa escolha, pois ela determinará muitas coisas em nossa vida, inclusive, na parte emocional.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Viver melhor

O outro dia, foi feita, neste espaço, uma pergunta bastante pertinente, o que se entendia por viver melhor. Cremos de tamanha importância tentar respondê-la, embora saibamos a impossibilidade desse fato, haja vista ser este blog o lugar da prolixidade inócua.
Talvez, viver melhor seja buscar a felicidade, fazer as escolhas que a ela conduzam, tentar diminuir ao máximo tudo de desagradável que dela nos afaste. Isso pode parecer de um egoísmo avassalador, mas, sem deixar de sê-lo, não o é completamente. Isto é, uma afirmação daquelas pode parecer, a olhos incautos, realizar, apenas, asa ações que conduzam a felicidade, o viver melhor, renegando tudo aquilo que causa tristeza, frustração, infelicidade. Contudo, a vida não funciona assim. Se traçamos um objetivo, seja ele qual for, inclusive, não se ter objetivos, o mais difícil de todos, passaremos por obstáculos, angústias, desrealizações, passos atrás pra lograrmos o fato desejado causador de felicidade, logo o caminho não é fácil.
Se levamos uma vida de instantes, sem planos futuros, sem muitas expectativas, o viver melhor, um tanto quanto estóico, é fazer o que se deseja e rejeitar, sim, tudo aquilo que nos desagrade. Porém, viver em sociedade é também aceitar o desagradável, conviver com a diferença, readaptar-se continuamente, pois, raramente, somos felizes na solidão absoluta, até porque se assim o fosse, não necessitaríamos de nada, além de nós mesmos, para sermos felizes. A mera convivência de nós com nós mesmos far-nos-ia os seres que melhor vivem a vida.
Em suma, o viver melhor, como tudo na vida, passa por escolhas e não por resultados apenas. Aliás, estes estão atrelados àquelas. Fazer ou não fazer algo desagradável para depois ou, até, surpreendentemente, no momento, termos um instante de alegria é escolha e far-nos-á felizes ou não por alguns momentos, porque a felicidade é momentânea e nunca perdurável. Entretanto, isso não nos fará melhores ou piores depois da obra completa, isto é, no além-túmulo, seremos seres que viveram e morreram igual a todos que por aqui passaram ou passarão. Então, como a vida é assaz curta, o mais interessante seria aproveitá-la ao máximo, pois não teremos como nos arrepender depois, e nunca privar-se do que nos traz felicidade apenas porque isso nos é imposto.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Qual a diferença?

Em uma aula de latim, conversávamos sobre a Fíbula de Preneste, uma fivela cujo valor é de ser o primeiro documento escrito em língua latina, na qual estava escrito “Manius me fecit Numerio” e que Manius nunca imaginaria que seria responsável pela primeira escrita conhecida em latim, a qual é de, aproximadamente, 600 a.C. Feita essa introdução, seria interessante abordar o tema da postagem de hoje: que diferença fez isso na vida de Manius? Viveu como um trabalhador e morreu, como acontecerá a todos que ainda existimos. Talvez, tenha sofrido, talvez, tenha sido infeliz, talvez, não.
A questão é que Cristo é conhecido por todos como um homem maravilhosamente bom (alguns acreditam ter sido Jesus mais que um homem, um semi-deus, com poderes divinos); Hitler é conhecido por todos como um homem terrivelmente mau (alguns acreditam não haver acontecido o holocausto e por isso Adolf não seria tão mau); Ricardo, o entregador de jornais na década de 50, é conhecido por alguns como um homem normal (alguns acreditam ser ele uma pessoa boa, outros pensam, exatamente, o contrário). Enfim, temos três personagens, mas poderiam ser os bilhões de pessoas que já habitaram a Terra.
A partir deles, perguntemo-nos: o que os faz, ou fê-los, diferentes em vida, isto é, para vida deles? Quem afirma que um deles foi mais feliz que o outro? Que alguns viveram sem angústias e os outros na agonia? Que uns sofreram mais que os outros? Ninguém poderá fazer tal afirmação, pois ninguém o saberá. O reconhecimento póstumo não muda a viva vivida de ninguém, o conhecimento em vida traz alegria por uns momentos, contudo não muda, drasticamente, a existência do ser. A transcendência, através das ações ou das letras, não nos faz melhor ou piores. Talvez, o esforço, para conseguir viver feito por Ricardo, tenha sido muito maior que o de Cristo, e Ricardo não tem uma linha nos livros de História.
Portanto, o ponto crucial da existência, quiçá, seja não se preocupar com a transcendência, senão existir vivendo, fazendo o que se gosta, pensando no presente, evitando desgastes desnecessários, veja bem, não se menciona falta de esforço para conseguir o que se quer, mas fazer de tudo para conseguir o que se quer; e se o desejado é atingir a transcendência, que se lute por ela, porém não nos enganemos, isto não nos fará melhores nem piores, afinal todos acabaremos da mesma forma: acabando.

segunda-feira, 22 de março de 2010

De onde vem?

O que desperta um sentimento? O que faz outro adormecer? Sobrepõem-se uns aos outros em estado latente à mercê do acaso ou desaparecem e tornam a aparecer às vezes? Como sempre, respostas não são fáceis de serem dadas em qualquer campo da existência humana. Contudo, discorrer e refletir sobre fatos, pois sentir também é um fato, faz-nos construirmos uma idéia melhor sobre eles.
Os sentimentos são, ao que parece, uma bomba prestes a ser detonada, esperando uma fagulha para acender-se. Algo os desperta, algo os faz adormecer. Talvez, sejam como a visão. Quem não tem problemas visuais pode enxergar. Isso parece ser de uma redundância horripilante, mas relativizemos. Sem a luz, podemos ter a capacidade de ver, no entanto não o conseguiremos, pois temos a necessidade desse conjunto de fatores para usufruirmos o dom da visão. Assim, cremos, são os sentimentos. Necessitam de algo para desencadear-se em uma sucessão infindável de sensações. Observemos que, mais uma vez, falamos dos sentimentos, porém não pretendemos explicá-los, haja vista o mestre Sartre haver apenas escrito um esboço sobre eles, que maturidade temos para ir mais além?
A questão é a sobreposição de um ao outro. Não deixamos de estar felizes porque estamos tristes, senão a tristeza foi mais forte e empurrou a felicidade para o fundo poço do coração ou vice-versa. O primeiro problema dos sentimentos e sua sobreposição é o fato de serem arredios, impertinentes e controversos. Destarte, aparecem sem serem convidados, recusam-se a sair e contradizem-se o tempo todo. Entretanto, não os vejamos, simplesmente, como negativos, porque quando chegam e fazem-nos sentir bem, são as visitas inesperadas e agradáveis que queríamos há muito tempo. O segundo problema dos sentimentos é o que carregam consigo, isto é, um punhado enorme de sensações. Difícil explicar a diferença, contudo, tentemos. Os sentimentos seriam um gênero do qual fazem parte sensações que não têm fronteira fixa, podendo migrar de um ao outro. A ira desperta a raiva, o rancor, a sensação de impotência, de vingança de menosprezo. O amor, a de felicidade, de ansiedade, de desejo, de... tudo. Bem, talvez, as sensações não sejam um problema, senão uma necessidade dos sentimentos.
Enfim, não se conseguiu explicar nada, o que é comum neste espaço. Contudo, logrou-se pensar sobre os sentimentos e perceber que sempre estamos sentindo através das sensações, afinal estamos vivendo, e viver é sentir. Se soubéssemos o que desperta um sentimento e faz outro adormecer, poderíamos controlá-los, mas então a existência seria bem menos confiável e prazerosa ou dolorida. Sim, dolorida, pois a dor faz-nos viver, andar para frente, querer livrar-nos dela, mas para quem goza da felicidade, aproveitemo-la, embora sem saber de onde vem.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Prova do tempo

Conhecemo-nos, se tivermos afinidades nos aproximamos e criamos o laço mais forte e importante que há no mundo, a amizade. Quando somos amigos, convivemos, trocamos experiências, compartilhamos sucessos e desventuras, damos apoio e somos apoiados; queremos saber tudo a respeito da pessoa e ela de nós. Contudo, quando há uma amizade que, de forma natural, esvai-se, a amizade termina? Se ficarmos dez anos sem falar, ver ou ouvir a pessoa, não somos mais amigos? Sempre acreditei que sim, porém, nestes últimos dias, foi-me possível perceber que isso era um ledo engano.

A amizade, quando a há, fica em estado latente, pulsante entre os amigos. Afastamo-nos das pessoas pois somos como os planetas, ou como diria Fernando Pessoa “ Satélites da tua subjectividade objectiva”, e giramos, orbitamos em torno de nós, mas um dia aproximamo-nos novamente e descobrimos que nada mudou, apesar de tudo ter mudado. Descobrimos que a amizade, até então em estado de suspensão, desce e reencontra-nos mudados, sendo os mesmos em essência. Obviamente, que com essas mudanças de pensamentos, idéias, posições que nos fazem os mesmos diferentes, uma amizade pode não se tornar, novamente, sólida e aí que vemos a pureza, a sinceridade e capacidade de ser quem somos, agindo tal qual devemos. Pois se amizade voltou da mesma forma ou com mais intensidade, podemos dizer que a falsidade está longe, e nossos amigos são seres confiáveis. Logo a amizade passou pela prova mor, a do tempo!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Férias

As férias estão intensas e estão a ser as melhores dos últimos anos. Os livros são ótimos, a leitura é algo que apraz, a escrita algo que purga e o estudo algo que nos faz crescer. No entanto, é essencial experimentar a vida, conhecer pessoas e lugares, passar um bom tempo com os amigos e pensar na vida. Isso tudo se torna melhor quando o fazemos diante do mar.
Para quem gosta da praia, do sol, do sal e, porque não, das noites, a praia é algo incrível. Então, como estive por algum tempo nela e a ela retorno amanhã, peço desculpas pela falta de atualização do blog, mas viver é preciso.